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“…o negacionismo se configura como uma ideologia que demonstra o fracasso da perspectiva iluminista: o problema não se encontra na ausência de conhecimento da população, mas num estranhamento da população em relação ao conhecimento que está sendo ofertado a ela. Longe de ser uma reação passiva, se trata de uma reação ativa de não reconhecer o conhecimento científico como algo que diz respeito aos seus problemas, necessidades ou interesses. Ou ainda, uma identificação dessa forma de conhecimento com um outro que não eles mesmos.” (Pereira Silva et al.; grifo meu)

O fenômeno do negacionismo científico vem de uma não-identificação com a visão científica corrente, seja pelas teorias, seja pelo próprio método científico.

Em essência, não se trata meramente de uma recusa dos resultados obtidos, e mais sobre o reconhecimento da pertinência destes resultados. Trata-se sobre enxergar a Ciência não como um Comum, e sim como um resultado privado que foi divulgado publicamente1.

“A divisão do trabalho na sociedade capitalista reserva aos proletários o trabalho manual de produção comum e às outras classes sociais a assimilação e a produção da cultura. Um trabalho fatigante e esgotante, tanto do ponto de vista físico como intelectual, não permite ao conjunto dos proletários adquirir e assimilar a ciência objetiva nos seus níveis mais evoluídos, nem conduzir uma atividade política e social permanente. A situação proletária no regime capitalista é uma situação de subdesenvolvimento cultural e científico.” (MANDEL & ANDERSON)

Ou seja, o fenômeno de negacionismo científico é uma consequência, a longo prazo, da Separação Trabalho Manual-Intelectual, correndo paralela à Alienação do Trabalho.

A reconciliação (dialética) ocorre ao reconhecer-se os conhecimentos locais2 e sua necessária relação com os conhecimentos mais gerais/“universais” — geralmente associados à Ciência. Em sua revisão do pensamento de Richard Levins, John Bellamy Foster e Brett Clark falam sobre o papel que a Ciência deve desempenhar no necessário planejamento social em um “sistema justo e sustentável de produção de alimentos”:

 “It was a crucial part of creating ‘a different kind of science’ that ‘requires the combination of the detailed, intimate, local, and particular understanding that people have of their own circumstances with the more general, theoretical, but abstract knowledge that science acquires only by distancing itself from the particular.‘67 This required appreciation and coordination between folk and scientific knowledge. Here knowledge was social and to be shared, rather than privatized for profits. Such an approach demanded asking bigger questions and analyzing the complexity of all systems in order to avoid hyperspecialization and reductionism. This form of planning was open, collective, and necessary in order to reorganize the social metabolic relations of humans to the earth.” (grifo meu)

Dessa forma, cumpre-se não só a socialização do conhecimento como o reconhecimento dos níveis distintos de complexidade que a Natureza assume enquanto objeto de estudo do fazer científico (agora pensado latu sensu); além disso, de certa forma rompe-se com a fissura sujeito-objeto, pois recupera-se o “feedback” de reação da Natureza através do reconhecimento dos “conhecimentos locais, in loco3.


Referências

Footnotes

  1. Ocasionalmente com “permissão para redistribuir” etc.

  2. Hayek os chama de “knowledge of particular circumstances of time and place”.

  3. Assumindo que há um processo (neo)científico que seja sustentável ecologicamente e que realmente reconheça o conhecimento particular como mais do que uma “peça auxiliar” à Ciência usual.