up:: 011a MOC Capital I // Fetichismo


(Imagem do filme Love, Simon)

“O caráter misterioso da forma-mercadoria consiste, portanto, simplesmente no fato de que ela [a forma-mercadoria] reflete aos homens os caracteres sociais de seu próprio trabalho como caracteres objetivos dos próprios produtos do trabalho, como propriedades sociais que são naturais a essas coisas e, por isso, também reflete a relação social dos produtores com o trabalho total como uma relação social entre os objetos, existente à margem dos produtores. É por meio desse quiproquó que os produtos do trabalho se tornam mercadorias, coisas sensíveis-suprassensíveis ou sociais.” (MARX, 2017, p. 147; grifo meu)

“[No mundo religioso], os produtos do cérebro humano parecem dotados de vida própria, como figuras independentes que travam relação umas com as outras e com os homens. Assim se apresentam, no mundo das mercadorias, os produtos da mão humana. A isso eu chamo de fetichismo, que se cola aos produtos do trabalho tão logo eles são produzidos como mercadorias e que, por isso, é inseparável da produção de mercadorias.” (Ibid., p. 148; grifo meu)

O fetichismo da mercadoria, como Marx o define, consiste no caráter misterioso que as Mercadorias, “coisas óbvias, triviais” à primeira vista, assumem enquanto Forma-Mercadoria, ou seja,

Tais características que plasmam-se às mercadorias advêm justamente do Trabalho necessário à sua produção, e tal caráter “sensível-suprassensível”, que parece independente do mundo dos homens, advém justamente do caráter que o trabalho assume numa sociedade mercantil.1

A igualdade dos trabalhos humanos assume a forma material da igual objetividade de valor dos produtos do trabalho; a medida do dispêndio de força humana de trabalho por meio de sua duração assume a forma da grandeza de valor dos produtos do trabalho; finalmente, as relações entre os produtores, nas quais se efetivam aquelas determinações sociais de seu trabalho, assumem a forma de uma relação social entre os produtos do trabalho.” (MARX, 2017, p. 147; grifo meu)

O caráter independente que as mercadorias parecem assumir frente ao mundo humano advém justamente do caráter privado dos trabalhos:

“Os objetos de uso só se tornam mercadorias porque são produtos de trabalhos privados realizados independentemente uns dos outros. O conjunto desses trabalhos privados constitui o trabalho social total. Como os produtores só travam contato social mediante a troca de seus produtos do trabalho, os caracteres especificamente sociais de seus trabalhos privados aparecem apenas no âmbito dessa troca. Ou, dito de outro modo, os trabalhos privados só atuam efetivamente como elos do trabalho social total por meio das relações que a troca estabelece entre os produtos do trabalho e, por meio destes, também entre os produtores. A estes últimos, as relações sociais entre seus trabalhos privados aparecem como aquilo que elas são, isto é, não como relações diretamente sociais entre pessoas em seus próprios trabalhos, mas como relações reificadas entre pessoas e relações sociais entre coisas.” (Ibid., p. 148; grifo meu)

Ou seja, o fetichismo da mercadoria advém justamente da Aparência que as mercadorias assumem — relações sociais entre coisas —, a qual é consequência da mediação através do mercado de relações entre trabalhos humanos. É neste sentido que Marx diz que

“Os homens não relacionam entre si seus produtos do trabalho como valores por considerarem essas coisas como meros invólucros materiais de trabalho humano de mesmo tipo. Ao contrário. Porque equiparam entre si seus produtos de diferentes tipos na troca, como valores, eles equiparam entre si seus trabalhos como trabalho humano. Eles não sabem disso, mas o fazem. Pois na testa do valor não vai escrito o que ele é. O valor converte, antes, todo produto do trabalho num hieróglifo social.” (Ibid., p. 149)

Ou seja, não é uma mera abstração, mas sim uma “abstração real”: não é pelas mercadorias serem fruto de trabalho abstrato que elas são trocadas, e sim, ao contrário, que são trabalhos abstratos porque as mercadorias são trocadas como valores.

“Na prática, o que interessa imediatamente aos agentes da troca de produtos é a questão de quantos produtos alheios eles obtêm em troca de seu próprio produto, ou seja, em que proporções os produtos são trocados. Assim que essas proporções alcançam uma certa solidez habitual, elas aparentam derivar da natureza dos produtos do trabalho, como se, por exemplo, 1 tonelada de ferro e 2 onças de ouro tivessem o mesmo valor do mesmo modo como 1 libra de ouro e 1 libra de ferro têm o mesmo peso, apesar de suas diferentes propriedades físicas e químicas. Na verdade, o caráter de valor dos produtos do trabalho se fixa apenas por meio de sua atuação como grandezas de valor. Estas [grandezas de valor] variam constantemente, independentemente da vontade, da previsão e da ação daqueles que realizam a troca. Seu próprio movimento social possui, para eles, a forma de um movimento de coisas, sob cujo controle se encontram, em vez de eles as controlarem.” (Ibid., p. 150; grifo meu)

Os trabalhos são tornados abstratos pela generalização da forma-mercadoria, ou seja, pela generalização da Relação de Troca de produtos do trabalho enquanto mercadorias, i.e. quando eles são produzidos com o propósito de serem vendidos2, quando sua produção já pressupõe o caráter abstrato de seu trabalho particular (que só será aferido enquanto trabalho social, remetendo a seu caráter abstrato, justamente, na troca).

“É possível entender O capital como sendo o desdobramento dialético do sujeito que dá sentido à forma específica em que as relações sociais se estabelecem no capitalismo. Desde o início [d’O capital], ainda que o sujeito histórico seja sempre o ser humano, ele se encontra, no capitalismo, estranhado/alienado pelo fetiche das mercadorias. Isto significa, dentre outras coisas, que a inserção social desse ser humano passa a depender do que sua mercadoria obtiver na instância de sua venda/compra, isto é, da efetivação, ou não, da propriedade de a mercadoria ser valor. Assim, o sujeito histórico no capitalismo é invertido, passando a ser o valor das mercadorias, enquanto o objeto (determinado, e não determinante) é o ser humano.” (CARCANHOLO, p. 119)

O caráter apartado que os valores das mercadorias assumem quanto ao trabalho de seus produtores advém do Fenômeno Emergente que seus valores próprios estão inter-relacionados (em maior ou menor medida) com os valores das demais mercadorias com que defrontam-se no mercado (devido à Divisão Social do Trabalho). É por isso que Marx diz que

“…os trabalhos privados, executados independentemente uns dos outros, porém universalmente interdependentes como elos naturais-espontâneos da divisão social do trabalho, são constantemente reduzidos a sua medida socialmente proporcional, porquanto[,] nas relações de troca contingentes e sempre oscilantes de seus produtos[,] o tempo de trabalho socialmente necessário a sua produção se impõe como a força de uma lei natural reguladora, assim como a lei da gravidade se impõe quando uma casa desaba sobre a cabeça de alguém.” (Ibid., p. 150; grifo meu)


“A única linguagem inteligível que nós falamos um com o outro são nossos objetos em sua relação de um com o outro. Nós não entendemos uma linguagem humana, e ela ficaria sem efeito.” (MARX apud ELBE, p. 26-7)


Desdobramentos dialéticos

Tal forma fetichista desdobra-se, dialeticamente, no Fetichismo do Dinheiro: o valor de uma mercadoria, uma característica que lhe é imanente, aparece como algo externo — mais que isso, externamente atribuído a ela por outra mercadoria, o Dinheiro.


Referências

  • CARCANHOLO, Marcelo Dias. Valor e preço na teoria de Marx: o significado da lei do valor. In: MEDEIROS, João Leonardo; SÁ BARRETO, Eduardo (Orgs.). Para que leiam O capital: interpretações sobre o Livro I. São Paulo: Usina Editorial, 2021.
  • MARX, Karl. O Capital: crítica da economia política - Livro I: o processo de produção do capital. 2. ed. São Paulo: Boitempo, 2017.
  • ELBE, Ingo. Trabalho alienado e abstrato. In: MARX, Karl. Manuscritos Econômicos Filosóficos. São Paulo: Martin Claret. 2017.
  • Marxismo e psicanálise: o mito do egoísmo inato, Eleutério F. S. Prado: https://outraspalavras.net/alemdamercadoria/marxismo-e-psicanalise-o-mito-do-egoismo-inato/?utm_source=pocket_mylist

Footnotes

  1. Alienação do Trabalho.

  2. Modo de Produção Capitalista.