up:: 0x51 MOC Dissertação Mestrado
related:: Fichamento Capital I Cap 11 - Cooperação // Fichamento Capital I Cap 12 - Manufatura // Fichamento Capital I Cap 13 - Maquinaria e Grande Indústria
O capital
Partimos do pressuposto que descrevemos o comportamento do capital, i.e. da autovalorização crescente do valor. Trata-se, portanto, da produção crescente de mercadorias, ou melhor, de produção de capital — pensando produção lato sensu, o que inclui também sua circulação e, mais importante, sua efetivação.
Para isso, supõe-se não só sua reprodução ampliada, como crescentemente ampliada, o que engendra o aumento (tendencialmente) da Composição Orgânica do Capital, assim como movimentos de Centralização de Capital e Concentração de Capital.
Subsunção formal do trabalho pelo capital
Cooperação
“A forma de trabalho em que muitos indivíduos trabalham de modo planejado, uns ao lado dos outros e em conjunto, no mesmo processo de produção ou em processos de produção diferentes porém conexos, chama-se cooperação.” (Marx, 2017, p. 400, grifo meu)
O que Marx chama de “Cooperação”, a forma de emprego de trabalho assalariado en masse por um único capital, desenvolve ainda mais a contradição imanente do capital: o capital opõe-se, por sua definição, ao Trabalho vivo, ao mesmo tempo que tem sua raison d’être (valor se valorizando) na produção de Mais-Valor1. Conforme emprega mais e mais trabalhadores — i.e. quando aumenta sua massa de Capital Variável —, aparece a esta parcela subjetiva de sua composição2 que seu trabalho não lhes pertence, em particular a conexão entre seus trabalhos.
“A interconexão de suas funções e sua unidade como corpo produtivo total reside fora deles [dos trabalhadores assalariados], no capital, que os reúne e os mantém unidos. Por isso, a conexão entre seus trabalhos aparece para os trabalhadores, idealmente, como plano preconcebido e, praticamente, como autoridade do capitalista, como o poder de uma vontade alheia que submete seu agir ao seu próprio objetivo.” (Marx, 2017, p. 407, grifo meu)
Em um nível mais abstrato, vê-se que o Pôr Teleológico que caracteriza o trabalho particular destes assalariados tem sua finalidade advinda de fora destes indivíduos — além, claro, dos meios de produção que eles empregam para a consecução deste pôr; o produto, também, não lhes pertencerá, sendo propriedade do capitalista que os empregou. Ou seja, é um pôr teleológico do capitalista, que é realizado por outrem! (Colocado assim, é bem ultrajante, não!?)
Manufatura
Com o avanço do regime de Manufatura, acentua-se este caráter alienante do trabalho, ditando cada vez mais a forma do trabalho, particionando-o em atividades particulares, articuladas — claro — pelo plano de produção do capitalista.
“diversas operações específicas, processo no qual cada operação se cristalizou como função exclusiva de um trabalhador, sendo sua totalidade executada pela união desses trabalhadores parciais” (Marx, 2017, p. 411)
Busca-se, dessa forma, agilizar a produção de uma Mercadoria ao 1) particionar seu processo de produção o máximo possível e 2) conectar os processos parciais da forma mais ininterrupta possível.
Parece haver uma dialética aqui (Babbage Principle, 20260114 Anotações Divisão Trabalho, 20260223 Anotações sobre The Eye of the Master) entre Divisão do Trabalho e divisão do valor nos processos manufatureiros de produção:
- A manufatura induz a partição dos trabalhos em processos parciais cada vez mais bem delimitados, o que permite uma maior delimitação dos “custos” (em verdade, valor) que cada um destes processos demanda, tanto de “capital” (Capital Constante) quanto de Força de Trabalho (capital variável)
- Essa delimitação maior do valor — uma quantidade social de trabalho abstrato que cabe despender nestes processos parciais (e, portanto, no processo total) — faz com que “todas as outras manufaturas que não empreguem um múltiplo exato deste número [de subprocessos e de trabalhadores neles empregados] produzirão o artigo [produto final] com custos maiores” (Babbage apud Marx, 2017, p. 420, n. 39) (i.e. a concorrência os força a aderir)
Vide Pasquinelli,
“The Babbage principle states that the organisation of a production process into small tasks (the division of labour) allows for the calculation and precise purchase of the quantity of labour that is necessary for each task (the division of value). The division of labour establishes a privileged perspective for the surveillance of labour, but also helps to modulate the extraction of surplus labour from each worker according to need. In more analytical terms, the Babbage principle posits that the abstract diagram of the division of labour helps to organise production while at the same time offering an instrument for measuring the value of labour. In this respect, the division of labour provides not only the design of machinery but also of the business plan.” (Pasquinelli, 2023, p. 63)
Nos processos até agora, porém, ainda há uma prevalência do fator subjetivo sobre os processos de trabalho: embora desenvolvam-se mais e mais instrumentos de trabalho para a miríade de trabalhos parciais que surgiam, os planos de produção baseavam-se nos trabalhos específicos a serem desempenhados, não propriamente nas ferramentas a serem empregadas; se se focava nestas ferramentas, sempre era preciso ter em mente qual tipo de trabalhador a empregar nelas.3
Desenvolve-se a contradição trabalho-capital ainda mais: não só o poder e a direção sobre o processo de trabalho centraliza-se na figura do capitalista, mas também agora “as potências intelectuais do processo material [opõem-se-lhes] como propriedade alheia e como poder que os domina” (Marx, 2017, p. 435); não só a finalidade de seu trabalho, como também a técnica com que exerce sua função parcial passam a lhe ser alheios, impostos de fora para dentro.
Subsunção real do trabalho pelo capital
Maquinaria
“Tão logo o homem, em vez de atuar com a ferramenta sobre o objeto de trabalho, passa a exercer apenas o papel de força-motriz sobre uma máquina-ferramenta, o fato de a força de trabalho se revestir de músculos humanos torna-se acidental, e o vento, a água, o vapor etc. podem assumir seu lugar” (MARX, p. 449; grifo meu)
O processo de divisão do trabalho e de especialização não só dos trabalhadores, como também das ferramentas de trabalho4, acompanhado dos processos de aumento de Produtividade do Trabalho, permitiu a produção en masse de mercadorias no mercado, tendo maior expressão na indústria têxtil da Inglaterra e seu apoderamento do mercado mundial. Tais processos têm, em sua essência, a produção mais rápida de mercadorias, ou melhor, a produção mais rápida que a média, o que permite ao produtor mais produtivo um Mais-Valor Extra, apropriado do resto do mercado.
“O hábito de exercer uma função unilateral transforma o trabalho parcial em órgão natural – e de atuação segura – dessa função, ao mesmo tempo que sua conexão com o mecanismo total o compele a operar com a regularidade de uma peça de máquina.” (Marx, 2017, p. 423)
É este ímpeto que induz o avanço da maquinaria, i.e. de que a operação efetuada durante o processo de produção seja menos e menos executada por trabalhadores humanos, sendo passíveis de automação sempre e onde for possível e, mais importante, viável economicamente.5
“A máquina-ferramenta é, assim, um mecanismo que, após receber a transmissão do movimento correspondente, executa com suas ferramentas as mesmas operações que antes o trabalhador executava com ferramentas semelhantes.” (Marx, 2017, pp. 447–8, grifo meu)
Dessa forma, efetua-se a substituição paulatina do trabalhador especializado por ferramentas especializadas, e de equipes de trabalhadores com funções específicas por sistemas semi-automáticos de máquinas especializadas — “semi-automáticos”, pois o papel do ser humano é não mais a efetivação (parcial) do pôr teleológico do processo de produção em que está empregado, e sim assegurar que o capital empregado efetue o processo de forma adequada. Ou seja, seu trabalho, que antes aparecia como submetido ao capital personalizado na figura de seu empregador, aparece agora como submetido ao capital despersonalizado da máquina, à qual tem de auxiliar em seu processo de produção, com o mínimo de perturbações de sua consecução adequada.6
Porém, o crescimento acelerado da produção devido à adoção da maquinaria (choque com barreiras naturais, e Aufhebung)
“O sistema mecanizado ergueu-se, portanto, de modo natural-espontâneo sobre uma base material que lhe era inadequada. Ao atingir certo grau de desenvolvimento, ele teve de revolucionar essa base – encontrada já pronta e, depois, aperfeiçoada de acordo com sua antiga forma – e criar para si uma nova, apropriada a seu próprio modo de produção. Assim como a máquina isolada permaneceu limitada enquanto foi movida apenas por homens, e assim como o sistema da maquinaria não pôde se desenvolver livremente até que a máquina a vapor tomasse o lugar das forças motrizes preexistentes – animal, vento e até mesmo água –, também a grande indústria foi retardada em seu desenvolvimento enquanto seu meio característico de produção, a própria máquina, existiu graças à força e à habilidade pessoais, dependendo, assim, do desenvolvimento muscular, da acuidade visual e da virtuosidade da mão com que o trabalhador parcial na manufatura e o artesão fora dela operavam seu instrumento limitado.” (Marx, 2017, p. 456, grifo meu)
Tal contradição entre as forças produtivas e as condições materiais que as sustentavam — contradição esta decorrente daquela mais fundamental: entre capital e trabalho — propaga-se à sociedade capitalista como um todo, composta por produtores privados cada vez mais especializados e dependentes do mercado; a mecanização de importantes setores da indústria, sob a onipresente lógica expansiva do capital (instigada pelo “acicate da concorrência”), força com que os demais setores também adotem tais revoluções técnicas.7
É somente ao superar tais barreiras, tais finitudes humanas e animais, que o capital pode se afirmar mais imperiosamente, capaz de produzir-se em escalas adequadas a seu conceito [Begriff?]; somente quando não só produz-se através de máquinas — ou seja, quando põe-se através delas —, mas principalmente quando produz tais máquinas através de máquinas — ou seja, quando põe seu próprio pressuposto —, é que o capital subsume efetivamente o trabalho humano8; “Somente assim ela [a máquina] criou sua base técnica adequada e se firmou sobre seus próprios pés” (Marx, 2017, p. 458).
“Na manufatura e no artesanato, o trabalhador se serve da ferramenta; na fábrica, ele serve à máquina. Lá, o movimento do meio de trabalho parte dele; aqui, ao contrário, é ele quem tem de acompanhar o movimento. Na manufatura, os trabalhadores constituem membros de um mecanismo vivo. Na fábrica, tem-se um mecanismo morto, independente deles e ao qual são incorporados como apêndices vivos.” (MARX, p. 494)
“À medida que a indústria mecanizada, com um número de trabalhadores relativamente menor, fornece uma massa cada vez maior de matérias-primas, produtos semiacabados, instrumentos de trabalho etc., a elaboração dessas matérias-primas e produtos intermediários se divide em inúmeras subespécies e incrementa, assim, a diversidade dos ramos da produção social. A indústria mecanizada impulsiona a divisão social do trabalho muito mais do que a manufatura, pois amplia em grau incomparavelmente maior a força produtiva dos setores de que se apodera.” (MARX, p. 516)
Dessa forma, o surgimento da máquina destaca o trabalho subsumido pelo capital, ao mesmo tempo que o ofusca. Destaca o trabalho subsumido pelo capital pois, assim como o capital emprega mãos individuais mas usufrui do trabalhador coletivo9, o capital compra partes individuais de máquinas, mas usufrui do produto da linha inteira de montagem. Ofusca o trabalho subsumido pelo capital pois, assim como o trabalho pretérito ofusca o trabalho vivo empregado, o sistema automatizado de produção ofusca a divisão social do trabalho à qual este sistema remete. As funcionalidades da máquina individual, seu modus operandi, seu output, seu encaixe no resto da “fábrica”’, tudo isso torna-se sua natural raison d’être; torna-se seu papel a desempenhar dentro do enorme ecossistema industrial, abstraindo-se de todo o processo técnico-social através do qual se deu sua “seleção social” dentre várias possíveis alternativas no mercado. É cativante, portanto, ver o aspirante a capitalista se deixar levar pelo curriculum vitae (curriculum mortis?) da máquina10 que ele deseja empregar, ao mesmo tempo que se esquece que, assim como as tartarugas de Galápagos, máquinas não conseguem se levantar sozinhas quando tombam, crasham ou pifam; por algum motivo desconhecido e diabólico, a Natureza faz com que ele sempre precise ter técnicos a postos para cada autômato que lhe brilhe aos olhos.
Sobre mercadoria-energia
“Steam engines replaced water mills not because coal was cheaper and more abundant than water, but because it provided a more stable flow of power than rainfalls and allowed factories to move close to urban areas, where the working class was living at the time. [Andreas] Malm has registered in this way the energetic rationale for the slow emergence of fossil capitalism out of the manufacturing age. It took roughly forty years for the steam engine to be adopted in the place of the water mill: if coal came to be used across the full spectrum of production, it was because it was the most adequate source of abstract energy, where ‘abstract’ means easily computable in terms of cost, transport, stock, performance, and social organisation.” (Pasquinelli, 2023, pp. 122–3)
Referências
Footnotes
-
“A diferenciação dos instrumentos de trabalho, por meio da qual instrumentos do mesmo tipo assumem formas particulares e fixas para cada aplicação útil particular, e sua especialização, que faz com que cada um desses instrumentos especiais só funcione em toda plenitude nas mãos de trabalhadores parciais específicos, caracterizam a manufatura.” (Marx, 2017, p. 416). ↩
-
O que não é mais do que expressão desta divisão do trabalho. ↩
-
“O fato é que um motor ineficiente [wasteful engine] compensa mais onde o carvão é barato do que um motor mais perfeito, porém custoso.” (Jevons, 1866, p. 6). ↩
-
“Como consequência do processo de racionalização do trabalho, as propriedades e particularidades humanas do trabalhador aparecem cada vez mais como simples fontes de erro quando comparadas com o funcionamento dessas leis parciais abstratas, calculado previamente. O homem não aparece, nem objetivamente, nem em seu comportamento em relação ao processo de trabalho, como o verdadeiro portador desse processo; em vez disso, ele é incorporado como parte mecanizada num sistema mecânico que já encontra pronto e funcionando de modo totalmente independente dele, e a cujas leis ele deve se submeter.” (Lukács, 2003, pp. 203–4). ↩
-
“O revolucionamento do modo de produção numa esfera da indústria condiciona seu revolucionamento em outra. Isso vale, antes de mais nada, para os ramos da indústria isolados pela divisão social do trabalho – cada um deles produzindo, por isso, uma mercadoria autônoma –, porém entrelaçados como fases de um processo global.” (Marx, 2017, p. 457). ↩
-
A própria necessidade de usar a expressão “trabalho humano” — a princípio uma redundância — é não mais do que reflexo desta subsunção: não é difícil, hoje em dia, pensar no “trabalho da máquina”, ou até mesmo no “trabalho de um computador/algoritmo/inteligência artificial”. ↩
-
“O que caracteriza a divisão do trabalho? Que o trabalhador parcial não produz mercadoria. Apenas o produto comum [“gemeinsame Produkt”] dos trabalhadores parciais converte-se em mercadoria.” (MARX, p. 429; grifo e adendo meus). ↩
-
E, hoje em dia, do algoritmo e da “tão falada IA” — “o que quer que isso seja”, murmura o capitalista para si próprio, enquanto conta as cédulas do dinheiro que reavê após suas demissões em massa para a compra de tokens de sua hyperscaler de escolha. ↩