up:: 011c MOC Capital III

“Esta parcela de valor da mercadoria, que repõe o preço [valor] dos meios de produção consumidos e o preço da força de trabalho empregada, repõe apenas aquilo que a mercadoria custa ao próprio capitalista e, assim, constitui para ele o preço de custo da mercadoria.” (Marx, 2017, p. 54, grifo meu)

O preço de custo da produção de uma Mercadoria compõe o capital despendido na produção desta mercadoria.

Ou seja, é composto por

Note-se que, portanto, se o valor da mercadoria é , onde é o Mais-Valor, então o preço de custo é

Distinção entre preço de custo real e preço de custo “capitalista”, e sua mistificação

Note-se, porém, que, embora este seja o custo “real” da produção desta mercadoria, o custo para o capitalista depende do capital adiantado por ele. Isso é porque, em particular quanto a ,

“Ele [o capital constante ] só existe como componente do valor-mercadoria porque existia anteriormente como componente do capital adiantado. O capital constante despendido é, pois, reposto pela parte do valor-mercadoria que ele mesmo repõe ao valor-mercadoria. Esse elemento do preço de custo tem, portanto, um duplo sentido: por um lado, ele entra no preço de custo da mercadoria pelo fato de ser um componente do valor-mercadoria que repõe o capital despendido; por outro, ele constitui apenas um componente do valor-mercadoria pelo fato de ser o valor do capital despendido ou porque os meios de produção custam esse mesmo valor.” (Marx, 2017, p. 55, grifo meu)

Ou seja, embora estes componentes componham de facto o valor da mercadoria produzida, pelo fato de transferirem valor a ela, aparece — porque, de fato, o é — como sendo uma reposição do valor deste capital despendido.

Uma mistificação desse tipo também ocorre quanto ao capital variável do preço de custo: ele não aparece mais como sendo o fator qualitativamente distinto que produz novo valor.

Portanto, o valor da mercadoria final aparece agora não como “recebendo” o valor de suas componentes — valor transferido por e produzido pela FT () —, e sim como uma reposição do capital despendido, e, portanto, reposição do capital adiantado.

“…a parte do capital desembolsada em trabalho diferencia-se da parte do capital desembolsada em meios de produção […] apenas pelo fato de que serve para o pagamento de um elemento de produção materialmente distinto, mas de modo nenhum pelo fato de que desempenhe papel funcionalmente distinto no processo de valorização da mercadoria e, portanto, também no processo de valorização do capital. No preço de custo da mercadoria, o preço dos meios de produção volta a ser aquele que já figurava no adiantamento de capital, precisamente porque esses meios de produção foram consumidos de modo adequado. Da mesma maneira, no preço de custo da mercadoria, o preço ou o salário […] volta a ser aquele que já figurava no adiantamento de capital, e isso precisamente pelo fato de que essa massa de trabalho foi despendida de forma adequada. Vemos apenas valores prontos, existentes — as parcelas de valor do capital adiantado —, mas nenhum elemento que cria novo valor. A diferença entre capital variável e capital constante desapareceu.” (Marx, 2017, pp. 55–6, grifo meu)

Adequada no sentido de que produziu mercadoria e efetivou-se no mercado, ou seja, este capital foi consumido, produziu mercadorias e elas foram vendidas, repondo o capital despendido e, eventualmente, repondo o capital originalmente adiantado.

Dessa forma, o mais-valor, o excedente do preço de custo que se obtém na venda, parece vir da circulação. Neste sentido, o mais-valor devém Lucro (Marx).

Como “O limite mínimo do preço de venda da mercadoria é dado por seu preço de custo”, pois “ele é o preço necessário para a mera manutenção de seu capital” (Marx, 2017, p. 63), aparece ao capitalista que o valor pelo qual o capitalista vende sua mercadoria no mercado é não seu preço de custo, e sim seu valor como um todo; assim,

“o excedente de valor ou mais-valor realizado na vendada mercadoria aparece para o capitalista como excedente de seu preço de venda sobre seu valor, e não como excedente de seu valor sobre seu preço de custo, de modo que o mais-valor contido na mercadoria não se realiza mediante sua venda, mas emana da própria venda.” (Marx, 2017, p. 63, grifo meu)

Aparece assim pois “o excedente sobre dada grandeza não pode constituir nenhuma parte dessa grandeza” (p. 64) — senão não seria excedente!

Diferença entre composição variável e constante do preço de custo

Variação de

Caso varie a parcela constante — e —, temos que o preço de custo varia de acordo:

Isso se dá porque esta parcela do capital transfere seu valor à mercadoria final.

Variação de

Contudo, o mesmo não vale para a parcela variável . Isso porque, embora o preço de custo varie, de fato

o valor da mercadoria final não varia — o que varia é a proporção de tempo necessário e tempo excedente, i.e. de reproduzido e de produzido

“O capital variável adiantado não acrescenta seu próprio valor ao produto. Em vez de seu valor, entrou no produto, antes, um novo valor criado pelo trabalho. Tal variação [de ] afeta, antes, a proporção de grandeza entre os dois componentes do novo valor, dos quais um constitui mais-valor e o outro repõe o capital variável e, assim, entra no preço de custo da mercadoria.

As duas partes do preço de custo [ e ] têm em comum apenas o fato de que ambas são parte do valor-mercadoria que repõem [sic] o capital adiantado.” (Marx, 2017, p. 56, grifo meu)

Para que fique mais claro: seja a proporção da jornada de trabalho que corresponde ao tempo necessário para que a força de trabalho reproduza seu próprio valor adiantado . Então corresponde à proporção do resto da jornada. Ou seja, o valor produzido (pela FT) nesta jornada será

Pressupondo que o valor produzido seja constante, teremos que


Referências

MARX, Karl. O capital: crítica da economia política - Livro III: o processo global da produção capitalista. 1. ed. São Paulo: Boitempo, 2017.