up:: 011c MOC Capital III
“Inicialmente, o mais-valor é, pois, um excedente do valor da mercadoria acima de seu preço de custo. Mas, como o preço de custo é igual ao valor do capital despendido, em cujos elementos materiais ele é também constantemente reconvertido, então esse excedente de valor é um crescimento do valor do capital que é despendido na produção da mercadoria e que retorna de sua circulação. Como tal derivado imaginário do capital total adiantado, o mais-valor assume a forma transformada do lucro. Uma soma de valor é capital, portanto, porque é desembolsada para gerar um lucro, ou o lucro é engendrado porque uma soma de valor é empregada como capital. Se chamamos o lucro de
, então a fórmula se transforma em , ou valor-mercadoria = preço de custo + lucro.” (Marx, 2017, pp. 61–2) “O lucro, tal como ele se apresenta aqui, é, então, o mesmo que o mais-valor, apenas numa forma mistificada, que, no entanto, tem origem necessariamente no modo de produção capitalista. Pelo fato de que na formação aparente do preço de custo não se percebe qualquer diferença entre capital constante e capital variável, a origem da alteração de valor que ocorre durante o processo de produção precisa ser deslocada da parte variável do capital para o capital total. Uma vez que[,] num polo[,] o preço da força de trabalho aparece na forma transformada do salário, no polo oposto o mais-valor aparece na forma transformada do lucro.” (Marx, 2017, p. 62)
O lucro é uma forma mais concreta do Mais-Valor, em que sua origem de facto torna-se mistificada.
Neste nível de abstração/concretude, o lucro aparece advir não da produção, nem do capital despendido apenas, mas também aparece como advindo do capital adiantado como um todo. Justamente pelo Preço de Custo mascarar as distinções qualitativas das componentes do capital que formam o produto — Capital Constante e Capital Variável em um nível de abstração maior, Capital Fixo e Capital Circulante em um nível mais concreto —, mascara-se também as origens do mais-valor.
“Portanto, na medida em que cria mais-valor, ele [o ‘valor-capital adiantado’] não o cria [o mais-valor/lucro] em sua qualidade específica como capital despendido, mas como capital adiantado e, assim, como capital utilizado em geral. Por isso, o mais-valor provém tanto da parte de capital adiantado […] como da parte daquele capital que entra no preço de custo; em suma, provém por igual dos componentes fixos e circulantes do capital empregado. O capital global — os meios de trabalho, bem como os materiais de produção e o trabalho — serve materialmente [stofflich] como criador de produto. O capital global entra materialmente no processo de trabalho real, ainda quando apenas uma parte dele ingressa no processo de valorização.” (Marx, 2017, p. 61, grifo meu)
Em níveis mais concretos
“Da transformação da taxa de mais-valor em taxa de lucro deve ser derivada a transformação de mais-valor em lucro, e não o inverso [!!!]. Com efeito, é da taxa de lucro que se parte historicamente [mais correto seria dizer: concretamente]. Mais-valor e taxa de mais-valor são, relativamente, o invisível e o essencial a ser investigados, ao passo que a taxa de lucro e, assim a forma do mais-valor como lucro são fenômenos superficiais [i.e. aparentes].” (Marx, 2017, p. 69)
“Na verdade, o lucro é´a forma de manifestação do mais-valor, tendo este de ser revelado mediante a análise daquele.” (Marx, 2017, p. 73)
Ao capitalista, interessa-lhe não os detalhes por trás de seu capital, de qual parte é composta de tal e tal; importa-lhe que ele adiante
Exemplo numérico
A título de exemplo, Marx, (2017), p. 60 usa os seguintes valores:
- Capital total
= £1680 - £1200 capital fixo
- £20 de depreciação durante produção de uma mercadoria
- £1180 permanecem não-desgastados
- £480 capital circulante1
- £1200 capital fixo
- £100 de excedente obtido com a venda
Ou seja, o capital despendido na produção da mercadoria é £(20+480) = £500, e o capital adiantado é £1680. A mercadoria é vendida, porém, a £600. Aparece ao capitalista — porque o é! — que
- O capital adiantado se valorizou:
- O capital despendido se valorizou:
É este £100, este excedente, esta valorização do capital, que devém lucro. Fica claro aqui que a fonte do lucro em si está perdida, parecendo até mesmo que ela vem da circulação, ou que vem da “astúcia” do capitalista de vendê-la mais caro que seu preço de custo.
Footnotes
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Note que, neste nível de abstração, mascara-se a distinção entre capital circulante constante e capital circulante variável. ↩