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Livro I, Capítulo 10: O conceito de mais-valor relativo

Divisão da jornada de trabalho em trabalho necessário e excedente

Dada uma Jornada de Trabalho constante, ela diferencia-se em Tempo de Trabalho Necessário e Tempo Excedente de Trabalho , a depender do Valor da Força de Trabalho . Neste caso,

“Ao prolongamento do mais-trabalho corresponderia o encurtamento do trabalho necessário, ou, em outras palavras, a parte do tempo de trabalho que o trabalhador até agora utilizava para si mesmo seria convertida em tempo de trabalho para o capitalista [que o emprega]. A mudança [das proporções da jornada de trabalho] estaria não na duração da jornada de trabalho, mas em sua divisão em trabalho necessário e mais-trabalho.” (Marx, 2017, p. 387)

Componentes do valor da força de trabalho/tempo necessário

Marx já acrescenta no parágrafo seguinte:

“Por outro lado, com dada grandeza da jornada de trabalho e dado valor da força de trabalho, a grandeza do mais-trabalho é evidentemente dada.” (Marx, 2017, p. 387)

Diferencia entre a produção da Força de Trabalho e a reprodução de seu valor:

“O valor da força de trabalho, isto é, o tempo de trabalho requerido para sua produção, determina o tempo de trabalho necessário para a reprodução de seu valor. […] Com o valor de seus meios de subsistência está dado o valor de sua [do trabalhador] força de trabalho, e com o valor de sua força de trabalho está dado a grandeza de seu tempo de trabalho necessário.” (Marx, 2017, p. 388)

Analisamos aqui o fenômeno em sua “pureza”, abstraindo de possíveis aumentos de tempo excedente mediante diminuições indevidas do tempo necessário, por meio das quais haveria “reprodução atrofiada de sua força de trabalho”.1

“Partindo-se desse pressuposto, o tempo de trabalho necessário para a produção da força de trabalho ou para a reprodução de seu valor pode ser reduzido, não fazendo com que o salário do trabalhador caia abaixo do valor de sua força de trabalho, mas apenas na medida em que haja uma queda desse valor.” (Marx, 2017, p. 389)

O valor da força de trabalho é definido pelo valor dos meios de subsistência necessários — i.e. mercadorias — para a produção da força de trabalho.

” …a totalidade dos meios necessários de subsistência compõe-se de várias mercadorias, cada uma delas o produto de uma indústria distinta, e o valor de cada uma dessas mercadorias constitui uma alíquota do valor da força de trabalho. Tal valor diminui com o tempo de trabalho necessário para sua reprodução, cuja redução total é igual à soma de suas reduções em cada um dos ramos particulares da produção.” (Marx, 2017, p. 390)

[Aumento das] Forças produtivas

Tais quedas de valores produzidos requerem “uma elevação da força produtiva do trabalho” (Marx, 2017, p. 389).

“Por elevação da força produtiva do trabalho entendemos precisamente uma alteração no processo de trabalho por meio da qual o tempo de trabalho socialmente necessário para a produção de uma mercadoria é reduzido, de modo que uma quantidade menor de trabalho é dotada da força para produzir uma quantidade maior de valor de uso.” (Marx, 2017, p. 389)

Dessa forma, a fixação da jornada de trabalho torna-se um obstáculo à produção crescente de mais-valor, sendo necessário, portanto, reduzir o tempo necessário da produção.

“…para a produção de mais-valor por meio da transformação do trabalho necessário em mais trabalho[,] é absolutamente insuficiente que o capital se apodere do processo de trabalho tal como ele foi historicamente herdado ou tal como ele já existe, limitando-se a prolongar a sua duração. Para aumentar a produtividade do trabalho, reduzir o valor da força de trabalho por meio da elevação da força produtiva do trabalho e, assim, encurtar parte da jornada de trabalho necessária para a reprodução desse valor, ele tem de revolucionar as condições técnicas e sociais do processo de trabalho[;] portanto, revolucionar o próprio modo de produção.” (Marx, 2017, p. 390)

Dessa forma, aumentar o tempo excedente — logo, aumentar a obtenção de mais-valor — pode ocorrer ao aumentar a jornada de trabalho — i.e. Mais-Valor Absoluto — e/ou ao diminuir o tempo necessário dessa jornada — i.e. Mais-Valor Relativo.

“Ao mais-valor obtido pelo prolongamento da jornada de trabalho chamo de mais valor absoluto; ao mais-valor que, ao contrário, deriva da redução do tempo de trabalho necessário e da correspondente alteração na proporção entre as duas partes da jornada de trabalho chamo de mais-valor relativo.” (Marx, 2017, p. 390)

Como o valor da força de trabalho depende do valor das mercadorias que a compõem — assim como em qualquer processo de produção capitalista —, aumentos de forças produtivas somente diminuem seu valor se afetarem os setores que produzem suas mercadorias “componentes”, i.e. quando há uma queda no Tempo de Trabalho Socialmente Necessário para a produção destas mercadorias, e, portanto, uma diminuição pro tanto do valor da força de trabalho.

“Em contrapartida, nos ramos de produção que não fornecem nem meios de subsistência nem meios de produção para fabricá-los, a força produtiva aumentada deixa intocado o valor da força de trabalho.” (Marx, 2017, p. 390)

Exemplo de Marx

Abstraindo de tempo necessário/excedente

Suponhamos que as condições médias na produção de alguma dada mercadoria sejam (Marx, 2017, p. 391) :

  • h de trabalho (abstrato) = pence/ sh.2
  • Jornada de trabalho h
    • Ergo, sh. (= pence)
  • Quantidade de mercadorias produzidas nessas horas:
  • “valor dos meios de produção, matéria-prima etc. gastos em cada peça” pence
    • mercadorias = sh. ( pence) em meios de produção

Expliquemos as unidades das variáveis deste problema como um físico (minimamente competente) o faria. Falaremos dos valores por peça, denotados com "" superscrito. Teremos então

ççççç

Ou seja, originalmente temos que o valor de cada mercadoria seria

çç

“Agora, suponhamos que um capitalista consiga duplicar a força produtiva do trabalho e, desse modo, produzir, durante as mesmas horas de trabalho, peças dessa mercadoria, em vez de . Permanecendo inalterado o valor dos meios de produção, o valor de cada mercadoria cai agora para pence, sendo pence pelo valor dos meios de produção e pence pelo valor novo agregado pelo último trabalho.” (Marx, 2017, p. 391)

Isso se dá porque, embora se mantenha constante, agora o tanto que o trabalho vivo se repartirá em cada peça se alterará:

çççç

Portanto, o valor por peça, com esta força produtiva duplicada, será

çç

Estamos focando aqui sobre a produção maior de produtos; o trabalho vivo reparte-se em uma quantidade maior de valores de uso.

Aqui, porém, surge uma discrepância entre o valor que foi despendido pelo capitalista mais produtivo — seu “valor individual” — e o valor pelo qual ele vende — o “valor social”. É por isso que Marx diz:

“O valor individual dessa mercadoria se encontra, agora, abaixo de seu valor [unitário] social, isto é, ela custa menos tempo de trabalho do que a grande quantidade do mesmo artigo produzida em condições sociais médias. Cada peça custa, em média, xelim ou representa horas de trabalho social; sob o modo alterado de produção, ela [uma mercadoria individual] custa apenas pence, ou contém apenas hora e meia de trabalho. Mas o valor efetivo de uma mercadoria não é seu valor individual, mas seu valor social, isto é, ele não é medido pelo tempo de trabalho que ela de fato custa ao produtor em cada caso singular, mas pelo tempo de trabalho socialmente requerido para sua produção.” (Marx, 2017, pp. 391–2, grifo meu)

Dessa forma, como o valor de cada mercadoria é seu valor social — ao ponto que, em verdade, é redundante dizer “valor social” —, cada mercadoria vende por pence, embora custe a este capitalista somente pence.

Note-se que o produto total de valor médio, em uma jornada de trabalho de h, é de sh., que reparte-se em sh. que foi transferido ao produto pelos meios de produção e sh. que foi produzido pelo trabalho.

O capital mais produtivo também despenderá/transferirá sh. no/ao produto final, e também despenderá sh. nas h de trabalho, porém venderá o dobro de mercadorias que a média, portanto obtendo sh. em sua venda. Portanto, seu produto de valor se reparte como

  • sh. em meios de produção
  • sh. por h de trabalho
  • sh. obtido a mais

Ou seja, ele obtém um excedente como se tivesse aumentado sua jornada de trabalho, i.e. como se tivesse adquirido valor gratuitamente produzido para si. Analisemos agora a repartição de uma jornada de trabalho entre tempo necessário e tempo excedente.

Analisando tempos necessário e excedente

Suponha-se que , onde h e h. Portanto, vide acima,

  • h custa sh.
    • h custa sh. (= valor diário da força de trabalho)
    • h custa sh.

Ou seja, a Taxa de mais-valor média é

Notemos que a média produz (nesta jornada de trabalho de h) mercadorias que se efetivam em sh., dos quais sh. são a elas transferidos pelos meios de produção. Portanto, mercadorias = sh. de trabalho vivo despendido, dos quais mercadorias = sh. são cristalizações de trabalho necessário e mercadoria = sh. é cristalização de trabalho excedente.

Para o capitalista mais produtivo, que tem o dobro da força produtiva média, sua taxa de mais-valor será diferente. Ele produz mercadorias, mas as vende ao “valor social” — obtém, portanto, sh. Como visto na seção anterior, estes xelins se repartem em ç de meios de produção, e sh. produzidos pelo trabalho vivo empregado durante h. Como o tempo necessário se reflete em sh., temos que resta sh. que foram obtidos como excedente. Portanto, sua taxa de mais-valor é

Portanto, seu tempo necessário aparece-lhe agora não como horas, mas sim como horas, e, portanto, seu tempo excedente aparece como horas! De fato, ele reduziu pela metade seu tempo necessário, ou seja, ele consegue reproduzir o valor da força de trabalho que despendeu — que, para a média, é equivalente a horas de trabalho — em somente horas.

A título de esclarecimento: Marx supõe que o capitalista venda não por pence a peça, mas pence, para mostrar que ele poderia “tirar essa vantagem” e ainda assim estar ganhando um excedente de valor. Isso pode dar a intuição incorreta de que ele consegue tal excedente somente ao vender mais barato, o que não é o caso. Regardless, no caso em que ele venda por pence a peça = sh. total, restar-lhe-ia sh. de excedente, rendendo-lhe, portanto, uma taxa de mais-valor

como Marx o ilustra (Marx, 2017, p. 392).

Formalização preliminar

Pressuponhamos que um aumento de forças produtivas permite uma produção maior de mercadorias em dado período de tempo. Sejam as seguintes condições propriedades da produção média:

  • : valor de meios de produção por peça
  • : jornada de trabalho, em horas
  • : valor por hora da força de trabalho
    • : valor da força de trabalho (trabalho necessário) em uma jornada de trabalho
  • : taxa (média) de mais-valor
    • : (mais-)valor do tempo excedente por hora
    • : mais-valor produzido em uma jornada de trabalho (trabalho excedente)
  • : valor total produzido (trabalho vivo efetivado) em uma jornada de trabalho
  • : quantidade de mercadorias produzidas em um dado período de tempo , que supomos, por simplicidade, como sendo igual à jornada de trabalho

Ou seja, o valor médio por peça é

O valor total produzido pela média, em um dado período de tempo, é igual a este valor unitário vezes a quantidade de mercadorias:

Um capital mais produtivo produz mercadorias (). Caso ele venda todas estas mercadorias ao “valor social”, ele obterá

O tanto que ele despende em capital constante é , que é deduzido deste valor equivalentemente3; o valor da força de trabalho — que representa o tempo necessário de trabalho despendido neste período de tempo da produção — também é deduzida disso. Resta a este capital, portanto, um excedente de

Sua taxa de mais-valor efetiva é, agora,

Nos casos acima, tivemos que , para o qual obtemos

Para , temos

como esperado.

Formalização adequada

Suponhamos condições médias tais que, para a produção de mercadorias em um período de tempo despenda-se:

  • em Capital Constante
  • Um certo valor por hora, de tal forma que o valor despendido para o trabalho em seja de
  • Uma divisão da jornada de trabalho em e de tal forma que
    • e
  • Portanto, o valor da força de trabalho despendido em para o capital com força produtiva média (i.e. que produz mercadorias) é e, portanto, que o mais-valor produzido seja

Tenhamos agora um capital com força produtiva , i.e. que produza mercadorias. Ele despenderá, neste processo,

Caso ele venda seu produto ao “valor social”, ele obterá

Disso ele recupera transferido pelo capital constante, e paga o valor da força de trabalho despendida . Resta-lhe, portanto, um excedente de

Seu equivalente de tempo necessário de trabalho é mensurável pelo quanto ele despendeu em força de trabalho, dada uma quantidade total produzida pelo trabalho (em ). Portanto, seu tempo de trabalho necessário aparece-lhe como

Seu tempo excedente aparece-lhe, portanto, como

Comparado com a média, ele obtém um equivalente de tempo excedente de , que se obtém da seguinte forma:

Pelo exemplo acima, , h e , com os quais se tem h e h. Pelas fórmulas acima, se obtém , portanto h e h. Ou seja, ao dobrar a produtividade do trabalho, ele obteve horas a mais em valor equivalente de tempo excedente!!!

Ele possui uma taxa efetiva de mais-valor igual a

(Inclusive, aqui fica claro que o fator é igual a !) Ou seja, sua taxa de mais-valor aumentou por !


Referências

Footnotes

  1. Princípio da Troca de Equivalentes.

  2. Xelins (shillings). xelim = pence (centavos; plural de penny).

  3. O mais adequado é dizer que este valor foi transferido ao produto e reobtido após sua venda.

MARX, Karl. O Capital: crítica da economia política - Livro I: o processo de produção do capital. 2. ed. São Paulo: Boitempo, 2017.