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27/05/26

Com o carvão, e sua viabilidade1, a produção industrial se tornou menos contingente das intempéries. A principal fonte de força-motriz da “primeira” Revolução Industrial (Malm, 2013), as rodas d’água tinham seu funcionamento contingente a vários fatores externos, como localização geográfica (próxima de córregos, topografias específicas etc.), regimes de chuvas (e.g. secas lhe eram detrimentais), temperatura (e.g. rios congelavam durante o inverno) etc. Ou seja, a produção que as empregava assumia um caráter mais ou menos sazonal, ao menos no que dizia à eficiência dos processos produtivos.

Com o carvão2, cristal condensado de biomassa de eras atrás, tais contingências deixaram de ser as principais preocupações do capitalista, podendo agora os processos de produção assumir um caráter mais uniforme e previsível.

28/05/26

O capital tem por pressuposto autovalorizar-se, i.e. tornar-se mais valorizado. Por isso, no que diz respeito à produção, há o ímpeto de aumentar a Composição Orgânica do Capital, Lei Geral da Acumulação Capitalista etc.

No nível de produção de mercadorias, há um ímpeto de produção crescente, produção de mais produtos no mercado. Neste ínterim, há um “incentivo” — pela concorrência — de maior produção, i.e. de produzir mais no mesmo tempo médio.

Produtividade do trabalho

Produtividade do Trabalho: reacomodações nos processos produtivos podem permitir, a princípio, que se produza mais mercadorias num mesmo tempo de trabalho, sem maior dispêndio de Força de Trabalho — porém com maior dispêndio de Capital Constante, claro.

Num mesmo , se a produção média é de mercadorias, com valor social total

temos que um capital possui maior produtividade do trabalho se, no mesmo tempo, ele produz , com mesmo adiantado e com . Desta forma, ele despende

e seu valor individual, portanto, é

Ele vende, porém, pelo valor social. Portanto, ele obtém

O que ele obtém de Mais-Valor Extra, portanto, é

Isso só vale a pena para o capitalista (no que tange à obtenção de mais-valor extra) se essa quantidade for maior que zero, i.e.

i.e. se o dispêndio em capital constante adicional for compensado pelo mais-valor extra a se obter pela quantidade a mais de mercadoria produzida e efetivada (ao valor social).

Neste caso, quando analisamos em um nível mais concreto, este capital constante empregado na produção desta mercadoria é “valor circulante”, i.e. Capital Circulante e Depreciação de Capital Fixo — ou seja, quanto mais mecanizado for o sistema, menor (?) será a depreciação repassada ao produto (em comparação com a quantidade produzida) e, portanto, tanto mais compensará. — Obs. importante: assumindo que esta implementação da máquina é pura e simplesmente visando aumento de produtividade, i.e. mantendo o mesmo nível de exploração de nervos, músculos etc. (i.e. intensidade) que a média.

Intensidade do trabalho

Efeitos na rotação

O Tempo de Circulação do Capital Industrial se separa da forma

i.e. no tempo da produção de mercadorias e no tempo de sua circulação e efetivação.

O tempo de produção desdobra-se em tempo de produção efetiva e tempo “inativo”. A implementação da maquinaria — o que vale dizer, do usufruto da mercadoria-energia — consegue comprimir este tempo inativo o tanto quanto as políticas trabalhistas vigentes permitirem.

O tempo de circulação de mercadorias consiste no tempo da compra dos meios de produção e Força de Trabalho e no tempo de venda da mercadoria final . A mecanização permite também a aceleração destes tempos, tanto nos setores de transporte quanto de comunicação e de logística. Aqui, tanto quanto no processo de produção de mercadorias, a mercadoria-energia permite que a circulação de bens não dependam mais (tanto) de estações e sazonalidades naturais, concedendo-lhes uma escala temporal mais e mais socialmente determinada, i.e. cada vez menos restrita por tais intempéries.

Visto em um nível mais concreto, o Tempo de Rotação do Capital é o tempo em que um capital adiantado repõe-se totalmente, i.e. re-produz este valor adiantado. O tempo de rotação total de um capital é uma média harmônica dos tempos de rotação de cada material de sua composição de valor, ponderados por sua proporção na composição total deste capital. Sua forma geral é

em que é a proporção (em valor) deste capital vis-à-vis o valor total adiantado, e é o tempo em que esta parcela de capital é totalmente utilizada neste processo. P. ex. um capital fixo pode ser empregado por (uma média de) anos, em cujo caso 3, enquanto o capital variável adiantado pode ser empregado duas vezes ao ano, em cujo caso .

Com a mecanização dos processos de produção, há um aumento de sua Composição Orgânica do Capital, , o que vale dizer que a proporção de Capital Variável cai vis-à-vis sua proporção constante; esta última, porém, não é totalmente composta pelo Capital Fixo, constando também do capital circulante constante, como Matérias-Primas e matérias auxiliares.

01/06/26

Reificação da energia e seu aproveitamento concreto

Com a “reificação” da energia, o transporte/circulação de mercadorias, condição intransponível da efetivação do capital, tornou-se controlável e menos contingente de fatores “exógenos”: não só tornou-se mais previsível, como permitia sua aceleração através da mecanização do transporte, tecnologias de comunicação e logística (já escrevi isso acima provavelmente).4

Através da combustão do carvão, mais energia do que os braços humanos e força-motriz animal era possível de ser aproveitada para atividades industriais. Tal usufruto, porém, requer tecnologia minimamente adequada para o não-desperdício de energia5, o que abrange desde o material dos recipientes dos materiais em combustão (metais com altos pontos de fusão), até os mecanismos de transmissão desta energia para as máquinas-ferramentas dos processos de produção, os quais tinham tanto de transmitir o máximo de força possível quanto de manter a temperatura o mais uniforme e previsível quanto possível.6.

Tal energia era melhor aproveitada justamente através de mecanismos de movimento periódico, como o movimento mecânico de rodas e polias desencadeado por expansões e contrações de pistões com vapor produzido pela combustão do carvão.7 Com o tempo, a produção de energia elétrica através do movimento periódico de bobinas em campos magnéticos tornou-se o padrão esperado de geração de energia8, abrangendo desde a queima de combustíveis fósseis (carvão, petróleo, gás natural) até energias ditas “renováveis”, como usinas hidroelétricas, eólicas e nucleares.9.

Superação das barreiras naturais por conta da mercadoria-energia

Tal possibilidade de prescindir de força humana ou animal (e de intempéries, ao menos imediatamente) foi o que permitiu a aceleração da produção de capital, ou, melhor dito, a superação das barreiras naturais, que afiguravam-se nas forças-motrizes orgânicas, através da dureza e resistência do metal e do submisso movimento do vapor.

Num nível mais concreto, o usufruto da mercadoria-energia entra como capital circulante, e, portanto, desempenha um papel em diminuir o tempo de rotação total do capital que o emprega (abstraindo do capital fixo a se mobilizar para aproveitá-lo, diminuição de etc.). Tal aceleração permite aumento da Taxa Anual de Mais-Valor etc.

Além disso, engendra um aumento da composição orgânica , não só por ser capital constante em si, como por permitir a diminuição de e demandar mais capital fixo (). Nesse ínterim, não é casual a bancarrota que causou à época da (segunda) revolução industrial: mais do que a queda de preços de mercado por conta da maior oferta de mercadorias produzidas em massa, mas (também) a possibilidade de acumulação de capital. É aqui que a tendência do capital realmente mostra-se flagrantemente: a produção crescente de capital, a acumulação também por centralização e “usurpação de capitalista por capitalista”, o acirramento das crises econômicas (não só especulativas), a massiva erupção do Exército Industrial de Reserva (Sobrepopulação Relativa), etc.


Referências

Footnotes

  1. “O fato é que uma máquina a vapor ineficiente vale mais [pays better] onde o carvão é barato do que uma máquina mais perfeita [more perfect], porém cara. Bourne, em seu ‘Treatise on the Steam Engine’, recomenda expressamente uma máquina simples e ineficiente onde o carvão é barato.” (Jevons, 1866, p. 6).

  2. Mediante a proliferação dos motores a vapor — leia-se: com sua viabilidade na produção industrial

  3. Assumindo que nosso período de referência seja denominado em “anos”. Se fosse, p. ex., em meses, .

  4. Não à toa formou-se a bolha ferroviária em meio à “Segunda” Revolução Industrial, chamada de “railway mania”: tratava-se de infraestrutura crucial para a indústria britânica — leia-se: principalmente a indústria têxtil —, sendo uma clara opção de investimento para quem tivesse “capital” (Capital-Dinheiro) disponível.

  5. Dentro dos limites termodinâmicos, evidentemente.

  6. Requeria-se manter a temperatura o mais alta possível, ou, mais precisamente, manter o gradiente de temperatura com relação à temperatura ambiente o mais alto possível, a fim de maximizar a eficiência térmica do motor a vapor. ( diz respeito à temperatura do motor, “hot”, e diz respeito à temperatura ambiente, “cold”.)

  7. Dentre os vários ciclos termodinâmicos que buscavam descrever distintos processos desse tipo, destaca-se o ciclo de Carnot, em que processos de expansão (isotérmica, ) e expansão (adiabática, ) de vapor d’água são seguidos por processos de compressão (isotérmica, ) e resfriamento (adiabático, ), seguidos novamente por expansão e aquecimento etc.

  8. A lei de Lenz, do Eletromagnetismo, descreve a geração de tensão elétrica através da variação de fluxo magnético que passa por um circuito fechado “imerso” neste campo magnético. O exemplo mais simples é de manter algum campo magnético constante, e ter alguma espira girando “dentro” deste campo magnético, gerando, portanto, uma corrente elétrica alternada.

  9. A energia solar tem como seu princípio o efeito fotovoltaico — não exatamente o efeito fotoelétrico, pois trata-se da formação de pares electron-hole, semi-condutores etc. Não é meramente a ejeção de elétrons, como no efeito fotoelétrico.

JEVONS, William Stanley. The Coal Question. 2. ed. London: Macmillan and Co., 1866.
MALM, Andreas. The Origins of Fossil Capital: From Water to Steam in the British Cotton Industry. Historical Materialism, v. 21, n. 1, p. 15–68, 2013.