Estamos no nível de abstração que Marx analisa no Livro I d’O Capital. Falamos da esfera de produção de valor, abstraindo de fatores como circulação e efetivação destes valores produzidos, i.e. assumindo que estes decorram como se não prejudicassem o movimento “puro” da produção.
“Eficiência sempre estará relacionada aos meios de produção. O nível de eficiência nos informa uma determinada relação entre insumos e produto. Quanto mais próxima essa razão estiver de , mais eficiente é o processo.” (Sá Barreto, 2022, p. 60)
Um capital que possua maior eficiência em seu processo de produção consegue despender menosmeios de produção para um mesmo nível de produto. Portanto, comparado com as condições médias, ele consegue adiantar
onde indica o percentual a menos que ele consegue “poupar” de meios de produção em seu adiantamento de capital. Sua composição orgânica diminui, com relação à composição da média, para . Dessa forma, ele precisa despender somente em meios de produção para mobilizar de capital variável.
Num caso concreto: caso ele decida adiantar capital para produzir em um período de tempo — por exemplo, uma semana, um mês etc. —, em que o capital médio adiantaria em capital constante e em capital variável, a uma taxa de exploração , então, para mobilizar (como a média), ele precisaria somente de . Caso ele decida fazê-lo, seu produto de valor será
vis-à-vis produto de valor médio
O mais-valor que ele produz, e efetiva ex hypothesi, é , excedente de trabalho dos assalariados sob seu comando. Ademais, ele também consegue efetivar um excedente a mais, pois vende a um valor maior do que aquele que precisou adiantar em seu processo de produção. Este “mais-valor adicional” (ou “mais-valor extra”) é definido da seguinte forma:
Seu significado é claro: enquanto a média despende , o capital mais eficiente despende , mas vende por (e etc.) — portanto, seu produto não só transfere seu capital constante ao produto, retornando-lhe após sua venda, como também uma quantidade aparece-lhe após a venda de seu produto, “como se” esta parcela de capital constante, que não adiantou, tivesse sido transferida de seus próprios meios de produção a seu produto. É certo, porém, que este valor não foi repassado a seu produto de valor, no sentido de que não veio de seu processo de produção; apareceu-lhe somente na efetivação de seu produto. Ou seja, não só ele se apropria do mesmo valor que consegue poupar em sua produção, comparado com o capital adiantado em média, como também terá este valor a mais para despender como queira. No que lhe diz respeito vis-à-vis seus competidores, ele tem um pássaro em uma mão e um outro pousa voluntariamente sobre sua outra. Embora certamente tenhamos boas suspeitas, não é claro neste nível de abstração que este valor excedente vem justamente da produção menos eficiente de seus competidores.
Caso este capital mais eficiente que a média decida por adiantar um capital total , restar-lhe-ia, portanto, de capital apto a ser reinvestido. Como sua composição é, agora, , seu capital adiantado precisa se repartir em e de tal forma a satisfazer as seguintes condições:
A partir da segunda condição, temos
Ressubstituindo na primeira condição, temos
do qual obtemos
A relevância de adotar esta nova composição é de obter mais mais-valor, ou melhor, de apropriar-se de mais mais-valor. É relevante, portanto, comparar os valores produzidos por este capital particular e pelo capital médio.
O capital médio produz valor
e o capital mais eficiente produz
Como o capital particular vai vender ao valor social, ele efetivará o seu valor produzido mais algum excedente adquirido pela venda. Ou seja, afere um mais-valor adicional
Abrindo a definição de , obtemos
Ou seja, o efeito puro de um aumento de eficiência de um capital — que decida adiantar o mesmo capital total que a média — permite com que ele produza um mais-valor maior, devido ao maior emprego de capital variável, porém faz com que ele se aproprie, efetivamente, do mesmo mais-valor que a média, portanto deixando de efetivar parte do que produziu. Como ele prefere destruir parte de seu próprio capital do que doá-lo para seus competidores, ele pode decidir, racionalmente, não aumentar sua eficiência, ou investir alhures esta parcela de valor que consegue economizar neste setor de produção.
Não à toa, portanto, quando economistas conclamam o aumento da eficiência material, seja da indústria ou dos indivíduos, por quaisquer motivos que sejam, tal aumento nunca deve recair sobre os agentes econômicos, que seriam acometidos por deadweight losses. Não à toa, portanto, tais honoráveis esforços são delegados ao Estado, não só para remover este fardo dos demais agentes econômicos, como também, vide acima, para produzir mais-valor a ser por eles apropriado1.
Caso ele empregue somente os meios de produção necessários para mobilizar que ele já pretendia mobilizar em capital variável, ele 1) terá uma “poupança” de e 2) produzirá valor
Ele produzirá o mesmo mais-valor que a média, porém também se apropria de um excedente: como ele vende ao valor social , ele se apropria do excedente
“Produtividade sempre diz respeito ao trabalho. O nível de produtividade nos informa uma determinada relação entre o trabalho vivo executado e o produto. (…)
O ganho de produtividade refere-se à diminuição do trabalho vivo exigido para produzir-se uma mercadoria (ou qualquer quantidade determinada de mercadorias). Como estão abstraídas [a princípio] variações de eficiência, o conjunto de matérias-primas e matérias auxiliares consumidos continua sendo o mesmo para qualquer nível dado de produção.” (Sá Barreto, 2021, p. 233)
O aumento da produtividade do trabalho permite com que o dispêndio de força de trabalho para a produção de uma mercadoria seja reduzido. Ou seja, pode-se pensar que “uma unidade” de força de trabalho é capaz de mobilizar “mais unidades” de meios de produção. Dito de outra forma: a composição orgânica do capital aumenta.2
Um exemplo numérico será de auxílio. Suponhamos que a produção a se analisar se dê em algum período de tempo dado, a uma taxa de exploração ; além disso, tenha-se que o capital médio adianta — logo, — em sua produção. Note-se que sua composição orgânica, portanto, é .
Podemos, aqui, pensar em dois cenários. Por um lado, podemos ter que decida ex ante quanto de capital ele irá adiantar, podendo, por exemplo, adiantar conscientemente “primeiro” e, portanto, , o mínimo necessário para mobilizar seu capital constante.3 Por outro, podemos ter o caso em que tem de adiantar uma quantidade dada de capital — digamos, 100 —, a qual ele tem de dividir de acordo com sua composição orgânica; ele sabe que com , ele precisaria somente de , mas esta seria a composição de capital de um adiantamento total de , não de — far-se-ia necessário, portanto, verificar quais seriam suas proporções efetivas de capital constante e variável, a partir de um adiantamento de capital dado.
Ganho de produtividade com capital adiantado total dado
Suponhamos que tem de adiantar um total de em capital. Dado um adiantamento de , suponhamos que o capital médio deste setor de produção tenha proporções de e , i.e. que tenha composição de capital . Digamos que possua um grau de produtividade tal que ele consiga mobilizar, por exemplo, de capital constante4 via adiantamento de em capital variável. Portanto, sua composição orgânica é . Comparando com o capital médio de seu setor de produção, sabe que consegue mobilizar, por exemplo, meramente com , tendo, portanto, um certo capital liberado a ser despendido como lhe aprouver. Ele deseja reinvesti-lo neste próprio processo, posto que (digamos) já anotou em seu balancete que estaria investido nesta empreitada. Seu reinvestimento, naturalmente, precisa tomar em conta sua composição de capital, que, no caso, é o dobro da composição média. Ele desejará, portanto, investir uma certa quantidade em capital constante e em capital variável, de tal forma que e que (diferente da média, para a qual ). Fazendo umas contas, este capitalista chega à conclusão que consegue investir seu capital adiantado em e .
Ou seja, o valor que ele produzirá será , à taxa de exploração média , enquanto o capital médio produzirá . Claramente este capital produz um valor bem menor que a média, mas venderá seus produtos ao valor médio; conseguirá obter, portanto, um mais-valor adicional, referente a esta diferença de valores efetivados, igual a . Ou seja, ele produziu um mais-valor menor que a média — no caso, —, porém compensou-o pela apropriação extra de ; no final das contas, este capital se apropriou de , i.e. do mesmo mais-valor que a média efetiva no mercado — o faz, porém, adiantando menos capital variável que a média!
Agora, tratemos formalmente este problema. Tenhamos que, em um dado período de tempo , o capital médio despenda em capital constante e em capital variável, portanto adiantando um capital total a uma composição orgânica igual a , produzindo mercadorias a uma dada taxa de mais-valor . Tenhamos também um capital específico que possui uma produtividade do trabalho maior que a média, de forma que, dado um adiantamento de capital constante igual a , este capital consiga despender uma quantidade de capital variável — onde mede o “grau de produtividade” deste capital com relação à média — para mobilizá-lo.
Note-se, portanto, que este capital não possui de composição orgânica, e sim , o que pode ser visto de duas formas: um capital variável é suficiente para mobilizar um capital constante ; e um capital variável consegue mobilizar capital variável .5
Destaque-se que terá agora um “a mais” para reinvestir na produção6, tanto em capital constante como em capital variável. Evidentemente ele desejará reinvesti-lo, pois capital parado é uma contradição em termos — é um “não-capital”; tem de investi-lo, porém, de acordo com sua (nova) composição orgânica.
Para encontrar como ele investirá todo seu capital adiantado — já determinado ex ante —, temos de notar que ele tem de satisfazer:
Ele deseja investir o mesmo capital adiantado em uma nova quantidade e .7
Ele deseja reinvestir este capital de acordo com sua composição orgânica, que é maior que a composição média de acordo com seu grau de produtividade .
Estas condições dão o sistema de equações
Como , e são dados, temos duas equações e duas variáveis e e, portanto, podemos obter a fórmula destas variáveis em função das informações dadas. Da segunda equação obtemos
Ressubstituindo na primeira equação, temos
Isolando , e ressubstituindo para , temos as soluções
onde é o capital adiantado . Como sanity check, pode-se checar que . Ou seja, este capital está empregando o mesmo capital adiantado que o capital médio emprega na produção de mercadorias em um período de tempo .
Este capital somente adotará este novo “plano de produção” mais produtivo caso ele lhe dê uma vantagem contra as condições médias de mercado. Como Marx o descreve no capítulo de mais-valor relativo do livro I, obtém uma vantagem comparado à média quando o valor unitário — valor produzido dividido por cada mercadoria produzida — que consegue produzir é menor ou igual ao valor unitário médio8.
Temos que o capital médio produz valor
e o capital produz
Ex hypothesi, o capital médio, ao despender , produz mercadorias em um período de tempo dado; digamos que este capital mais produtivo produza mercadorias ao despender , onde . Então, a relação entre seus valores unitários pode ser obtida da seguinte forma:
De fato, um capital mais produtivo garantidamente produz mercadorias com valor unitário menor que o da média, mesmo quando não produz mercadorias a mais: como , então, se ele produz a mesma quantidade de mercadorias, ele só tomaria vantagem se 9 — o que é sempre satisfeito, justamente por seu grau maior de produtividade, que faz com que .
Ou seja, com um aumento do grau de produtividade, ele sempre consegue adquirir um mais-valor adicional , pois esta é justamente a diferença entre o valor produzido pela média e o valor produzido por . Portanto, abrindo , e chamando o mais-valor adicional de , temos10
Como temos que
obtemos que
(Como sanity check, veja que faz com que , como esperado.)
Ademais, seu mais-valor produzido é
Ou seja, enquanto o capital médio obtém mais-valor — que ele próprio produz e de que também se apropria —, o capital mais produtivo produz mais-valor menor que , mas também se apropria de mais-valor adicional , de tal forma que, no fim e ao cabo, este capital se apropriará do mesmo mais-valor que a média. Ou seja, produz menos mais-valor por si próprio, mas efetiva um mais-valor adicional de tal magnitude que precisou adiantar menos força de trabalho (do que a média) para, mesmo assim, obter o mesmo excedente de trabalho (i.e. mais-valor) como se tivesse produzido nas condições médias.11
Pelas fórmulas de e , fica clara a relação entre estas novas quantidades investidas e a composição orgânica maior deste capital. Neste nível de abstração, porém, estamos falando puramente da produção de valor deste capital, em que a apropriação de valor deste capital vem do valor social ao qual ele vende suas mercadorias. Porém, não é possível ver, neste nível, que o mais-valor adicional de que ele se apropria é produzido por capitais menos produtivos, conclusão à qual podemos chegar somente no nível de abstração de taxas de lucro (que Marx aborda somente no livro 3 d’O Capital).
Além disso, a taxa de mais-valor deste capital mais produtivo também se diferencia da taxa de mais-valor do capital médio, no sentido de que, assim como este capital produz mas se apropria de , também sua taxa de mais-valor se diferencia entre aquela que advém de sua produção e aquela que advém de sua apropriação. A que diz respeito à sua produção é
i.e. é, quase por definição, a mesma taxa de exploração que a da média. A taxa que diz respeito à sua apropriação, porém, é diferente. Denotando-a por , temos que ela é
Ou seja, no que tange ao excedente que este capital de fato se apropria, sua taxa de mais-valor é maior que a da média; não é meramente uma aparência “as-if” deste fenômeno, mas algo que é real: este capital adianta, de fato, capital variável , que reproduz seu próprio valor e um excedente/mais-valor , e também apropria-se, após a venda de suas mercadorias pelo valor social, de um extra . Não é mera aparência: ele, de fato, apodera-se de um valor excedente ao que adiantou previamente.
Ademais, não só sua taxa de exploração aparece aos demais capitalistas como maior; o que eles enxergam, concretamente, são os preços menores que este capital é capaz de sustentar no mercado. Mesmo que estejamos aqui pressupondo (como Marx no livro I) que mercadorias são vendidas por seus valores, não só o capital mais produtivo produzirá uma quantidade maior de mercadorias, como o próprio valor “bruto” por ele produzido será menor; portanto, o valor unitário de cada mercadoria terá “dois motivos” para ser menor que o valor unitário da média: o “valor bruto” produzido é menor do que o que a média produz, e este valor menor será repartido em mais mercadorias que a média, tendo valor unitário menor do que o valor unitário médio.
Em suma: o aumento de produtividade de um capital, vis-à-vis produtividade média de seu setor, permite que ele 1) aumente seu emprego de capital constante, trabalho morto, e 2) diminua sua necessidade de capital variável, trabalho vivo, ao mesmo tempo em que 3) se apropria do mesmo excedente de que se apropriava antes de seu ganho de produtividade. Implícito está, de forma mistificada, que haverá valor “disponível” no mercado de que ele conseguirá se apropriar, i.e. que ele conseguirá efetivar seu produto ao valor social (em nível mais concreto: ao preço de mercado), que haverá demanda para a oferta aumentada de seu setor (em particular devido à oferta excedente deste capital particular) etc. Porém, ao passo que este capital é capaz de se apoderar de parcelas maiores de mercado — portanto, acumulando capital —, seu objetivo não é mais meramente conquistar a demanda de seus compradores, mas também, e talvez até mais, apoderar-se do capital de seus competidores,
“…concentração de capitais já constituídos, supressão [Aufhebung] de sua independência individual, expropriação de capitalista por capitalista, conversão de muitos capitais menores em poucos capitais maiores.” (Marx, 2017, p. 701)
Fazê-lo, porém, é uma faca de dois gumes, pois faz com que a média de seu setor tenda a seu nível particular de produtividade, desfazendo justamente a vantagem que ganhava outrora. A princípio, porém, nada o impede de redirecionar parte de seu capital para outros setores (mais lucrativos) de produção.
Ganho de produtividade com capital constante dado
Caso em que ele emprega e , e poupa:
Poupança de
Apropriação pós-venda de
: diferencial da reprodução de pela média e da reprodução de pelo capital (variável) mais produtivo
: diferencial do excedente produzido pela média e do produzido pelo capital (variável) mais produtivo
Mais-valor produzido (e efetivado):
Tenhamos um setor com capital médio que adiante capital (composição orgânica ), a taxa de mais-valor , para produzir mercadorias num período de tempo . Tenhamos também um capital particular que tenha produtividade do trabalho maior, i.e. que adiante de capital constante e necessite somente de capital variável, em que mede seu grau de produtividade.
Portanto, este capital adianta (tem composição ), e produz produto de valor
Ele vende, porém, ao “valor social” (valor produzido pelo capital médio)
O produto deste capital particular se divide, portanto, em
, o valor de seu produto, em que ele obtém mais-valor
o resto do que ele se apropria, i.e. , que é seu “mais-valor adicional”, de que ele se apropria sem ter produzido por si próprio
O efeito sobre o valor da força de trabalho
O valor da força de trabalho diz respeito ao valor total das mercadorias demandadas por seus ofertantes — a classe trabalhadora assalariada — para sua reprodução dia após dia. Embora o consumo da classe trabalhadora tenda a seguir o [[Ciclo M─D─M|ciclo ]], ela ainda assim consome mercadorias produzidas por capitalistas — portanto, mercadorias cujos valores contêm em si mais-valor. Portanto, ao aumentar suas forças produtivas, os setores que produzem tais mercadorias — assim como os setores que produzem os meios de produção dos primeiros, e também aqueles que produzem os meios de produção destes últimos etc. — abaixam os valores das mercadorias neles produzidas, rebaixando, por consequência, o valor da força de trabalho dos trabalhadores que as consomem.12 Está claro, portanto, que o mecanismo que move o capitalista individual a aumentar sua produtividade do trabalho, em particular nestes setores de subsistência, é o mesmo mecanismo que induz o paulatino aumento da produtividade dos setores em que pertencem. Não é pela bondade destes capitalistas particulares que os demais conseguem obter mais-valor relativo pelo barateamento de sua força de trabalho contratada, e sim por seu benefício próprio, por seu self-interest.
Este ímpeto do capitalista particular, individualmente e contra a produção social à qual remete, é o mesmo que induz a queda do valor (social) ao qual seu produto diz respeito, cuja diferença vis-à-vis sua produção individual é o que lhe concede vantagem contra seus competidores, para começo de conversa; aquilo que lhe permite correr mais rápido que os demais capitalistas é o mesmo movimento que, quando perpetrado socialmente, faz com que sua liderança se esvaia pouco a pouco, impelindo-o a buscar aumentar sua capacidade produtiva novamente; ou seja, faz com que ele tenha não só uma sede crescente por produtividade, mas uma sede acelerada, crescentemente crescente. Dessa forma, é sempre efêmera sua sensação de estar “ganhando do mercado”, sendo sua húbris, portanto, mera cortina de fumaça de que sua glória de Prometeu é tão maior quanto mais chegam águias, tanto em maior quantidade, quanto maior voracidade para devorar suas entranhas.
“No caso de aumento da intensidade, as novas tecnologias contribuem no sentido de concentrar uma quantidade maior de trabalho em um dado período de tempo. Lembrando que abstraímos de outros efeitos, trata-se da elevação do ritmo da produção sem que se alterem as razões entre o trabalho e produto (a produtividade) e entre matérias-primas [e meios de produção] e produto (a eficiência). A maior intensidade atua, portanto, no sentido de comprimir uma jornada de trabalho mais extensa em uma jornada menor.” (Sá Barreto, 2021, p. 234)
Um aumento puro de intensidade do trabalho ocorre quando há uma “condensação” do trabalho despendido. Isto se dá principalmente quando são estabelecidas leis trabalhistas que restringem jornadas de trabalho, em cujo caso o capital busca fazer com que seu capital adiantado renda-lhe o mesmo que rendia antes, nem que faça-o em menos tempo.
Entender o que significa um aumento de intensidade do trabalho requer entender no que consiste o dispêndio em capital variável. Como Marx o coloca, o salário por tempo diário pode ser decomposto da seguinte forma13
onde é o valor médio a se pagar pelo trabalho de um trabalhador por uma hora — i.e. tem unidades do tipo “dinheiro por trabalhador por hora” —, seria o tempo de trabalho em que ele emprega tal força de trabalho, e seria o número de trabalhadores contratados.
Ou seja, o aumento de intensidade descreve uma condensação de um tempo de trabalho maior em um período de tempo menor. Por exemplo, caso a jornada de trabalho diária mude de pra horas, e que o salário mínimo se mantenha o mesmo. Então, se o capitalista desejar produzir o mesmo valor que produzia na jornada de trabalho original (h) na nova jornada (h), ele terá que adiantar o mesmo capital constante para tal — meios de produção, matérias-primas e materiais auxiliares — e, pressupondo produtividade e eficiência dados, o mesmo adiantamento de capital variável que a média adiantaria na jornada de trabalho original. Porém, o que ele deseja pagar neste processo de produção em h é , mas ele deseja que a força de trabalho seja exercida como se o fizera por h — e, como ele se propôs ex hypothesi a pagar a força de trabalho pelo que ela, de fato, trabalha, ele será forçado a pagá-la devidamente —; para manter constante, dado o salário mínimo , ele terá de diminuir seu staff para — ou seja, ele vai intensificar o trabalho dos trabalhadores que permaneceram!
to-be-elaborated Mas então, por mais que a composição de valor tenha permanecido a mesma que a da média, sua composição técnica certamente mudou, certo? Por mais que tenha o mesmo tanto de meios de produção que o mobilizado pela média, tem bem menos mãos em comparação — portanto, sua composição orgânica muda, por mais que sua composição de valor se mantenha.
Formalizemos o argumento agora. Tenhamos que a jornada de trabalho mais longa — “mais porosa” — seja denotada por , e a jornada mais intensa por ; nos exemplos usuais de Marx, horas e horas.14 Temos então que indica o “grau de condensação” da jornada de trabalho, de forma que hora mais intensa (i.e. mais curta) é equivalente a horas de jornada menos intensa (i.e. mais longa).
“Ao lado da medida do tempo de trabalho como ‘grandeza extensiva’ apresenta-se agora a medida de seu grau de condensação. A hora mais intensa da jornada de trabalho de 10 horas encerra tanto ou mais trabalho, isto é, força de trabalho despendida, que a hora mais porosa da jornada de trabalho de 12 horas. Seu produto [da ‘hora mais intensa’] tem, por isso, tanto ou mais valor que o produto da [] hora mais porosa.” (Marx, 2017, pp. 482–3)
Tomando a jornada mais porosa/longa como uma “régua” da jornada mais intensa/curta, teremos que os tempos necessário e excedente de trabalho são transformados: sendo e a decomposição da jornada de trabalho mais longa em tempo necessário e excedente de trabalho, então a jornada mais curta terá respectivamente e .15 Voltando ao exemplo de Marx:
“Desconsiderando a elevação do mais-valor relativo pela força produtiva aumentada do trabalho [i.e. abstraindo da produtividade do trabalho], podemos dizer, por exemplo, que horas de mais-trabalho [i.e. ] sobre horas de trabalho necessário [i.e. ] fornecem agora ao capitalista a mesma massa de valor que antes lhe era fornecida por horas de mais-trabalho sobre horas de trabalho necessário.” (Marx, 2017, p. 483)
O produto de valor de uma jornada mais intensa é — caso ele despenda , invés de tentar burlá-lo para despender menos — o mesmo que da jornada menos intensa (a qual dá a régua do grau de intensidade). Para ver isso, enunciemos o problema claramente: supomos que não haja variações de produtividade do trabalho e de eficiência dos meios de produção, e que sejam dados a taxa de mais-valor , composição orgânica do capital e capital adiantado para a produção de mercadorias em um dado período de tempo . Dado um capital cuja produção é mais intensa, com certo grau de intensidade (i.e. uma hora mais intensa equivale a horas menos intensas), temos que ele deverá adiantar capital
e produzirá mercadorias em , da mesma forma que o capital médio deveria fazer para produzir, em condições normais, em .
Como a composição orgânica é constante, temos que
ou seja,
Dessa forma, podemos escrever como e como .
Ademais, note-se que este capital, de certa forma, ainda produz nas condições médias; o que o distingue do capital médio é que, num período de tempo , ele produz como se fosse o capital médio produzindo por . Dessa forma, o valor unitário das mercadorias que este capital produz é igual à do capital médio em . Portanto,
Isolando os termos que restam, temos
Como Marx o coloca, “O número de produtos aumenta, aqui, sem que caia seu preço [no caso, seu valor]” e “a mesma soma de valor se representa numa massa aumentada de produtos” (Marx, 2017, p. 591).
Por fim, notemos que, enquanto corresponde a um tempo necessário de trabalho , temos que corresponde a um tempo necessário . Ou seja:
Podemos concluir, portanto, que
pois a proporção que relaciona — o tempo necessário da jornada menos intensa — com — a jornada mais intensa, “como-se-fosse” mais longa — é justamente o grau de intensidade dado. Portanto, temos que
Da mesma forma, o tempo excedente também aumenta pelo fator . No que tange a este capital mais intensivo, sua taxa de mais-valor é a mesma que a média, pois
Contudo, sua taxa de mais-valor pode aparecer diferentemente para o capital médio. Caso um dado capital empregue mais força de trabalho que a média, ele certamente pode tornar sua jornada de trabalho mais intensa que a média, simplesmente por despender mais trabalho num período de tempo do que o resto do mercado; isso, porém, mais parece com um “dispêndio a mais” do capitalista do que uma exploração maior de sua força de trabalho.
Porém, algo diferente aparece quando ele não emprega mais força de trabalho, e sim faz com que aquela que já contratou trabalhe mais, p. ex. acelerando o ritmo do processo de produção através de maquinaria etc. Supondo que, por exemplo, um capital médio empregue trabalhadores, então temos que, caso algum deles faça com que o ritmo de produção aumente com esta mesma mão-de-obra, a situação aparecerá como ela de fato é: os mesmos trabalhadores estão trabalhando mais, estão exercendo mais músculos, cérebro, nervos, etc. do que o trabalhador médio. Portanto, sua exploração parece maior, justamente porque o é. Isso se manifesta matematicamente quando comparamos o trabalho excedente dele com o trabalho necessário da média:
Isso se torna manifesto no caso em que este capital ganha maiores parcelas de mercado, em cujo caso os capitais que desejem competir com ele deverão aumentar suas intensidades de trabalho, fazendo-as tender a — ou seja, aquilo que lhes era uma aparência de um concorrente distante impõe-se-lhes como lei férrea da concorrência.
À primeira vista, analisar um aumento puro de intensidade do trabalho parece estranho, pois sempre é descrito na literatura marxista como um aumento quase imaginário, sempre “como se fosse” um aumento da jornada de trabalho. Aqui fica um pouco mais claro esta asserção: o capitalista, de fato, “paga a mais” por seu capital variável empregado em , mas o usufrui como se o usufruísse por16; ou seja, paga devidamente pelo que usufrui, por mais que pague por menos tempo efetivo e (possivelmente) por menos trabalhadores individuais. Alternativamente, ele pode acatar às legislações trabalhistas de redução de jornada de trabalho, empregando força de trabalho por menos tempo; porém, se ele tiver desejo de manter a mesma intensidade de trabalho da jornada prévia — e isso certamente ele tem —, como ele está submetido agora às condições médias de uma jornada de trabalho menor, ele “tem direito” a pagar menos pela força de trabalho (média) que contrata. Tal força de trabalho média, porém, diz respeito ao conglomerado de assalariados que contrata por certo tempo; diz respeito à capacidade média do trabalhador coletivo que emprega, não necessariamente às capacidades individuais dos trabalhadores que contrata.17 Portanto, ainda que pague devidamente pela força de trabalho que emprega, ele consegue imputar uma exerção maior de cérebro, músculos, nervos etc. dos trabalhadores singulares sob seu domínio. Dessa forma, pode até ser que um “plebeu frugal e industrioso” tenha mais posses do que vários “reis africanos, mestres absolutos das vidas e liberdades de dez mil selvagens nus” (Smith, 1904, p. 41), mas certamente não as possui por ser pago mais do que seu trabalho realmente vale.18
Referências
Footnotes
Ao menos em certa medida. Muitos outros fatores podem mitigar, e mesmo contrarrestar, tal tendência de um aumento “puro” de eficiência. ↩
A rigor, a composição orgânica é uma unidade dialética da composição técnica do capital — sua composição em meios de produção e de força de trabalho — e da composição de valor do capital — esta sim igual a . A menção de “composição orgânica” ao longo do texto — e, de fato, ao longo d’O Capital — diz respeito à composição de valor relacionada a composição técnica, pois a análise isolada destas composições é perigosa: uma mesma composição técnica pode representar composições de valor diferentes ao longo do tempo, e vice-versa. ↩
Mutatis mutandis caso ele decida adiantar de capital variável e, portanto, de capital constante (vis-à-vis do capital médio). ↩
É importante que tenhamos ao menos algum fator em comum entre o capital médio e este capital individual, a fim de que eles sejam comparáveis. Neste caso, escolhemos fixar . É possível também fixar . ↩
A demonstração disso é por “regra de três”: um capital variável está para assim como está para . ↩
Neste caso, este capital a mais é igual a . Uma forma de entender o que essa fórmula significa é notar que ela diz que divide-se agora, para este capital mais produtivo, em uma parcela “necessária” e uma parcela de valor “liberado” . ↩
Note-se que e . Contudo, destaque-se que , porque é o capital variável necessário para mobilizar , e é o necessário para mobilizar e também uma parcela (tal que ). Pode-se provar que tem de ser estritamente menor que , porque , o que faz com que , pois e, portanto, . ↩
A rigor, “valor médio” é uma redundância, pois valor é naturalmente uma categoria social (pode-se ver isso em que sua grandeza é tempo de trabalho socialmente necessário). Faz sentido neste contexto — e também nas discussões de Marx no livro I — por se tratar dos valores produzidos por um capital individual e pelo capital médio. ↩
Pois os denominadores dos valores unitários seriam iguais (). ↩
Este mais-valor adicional é a diferença do valor social e do valor individual: os termos se cancelam com , restando somente os termos de mais-valor de cada um. ↩
O fato de que seu mais-valor total é igual ao mais-valor produzido pela média é consequência de que este capital adianta o mesmo capital que a média, . Já aqui podemos ver, portanto, que adiantar o mesmo montante de capital não significa que suas apropriações de valor serão iguais. ↩
“Para reduzir o valor da força de trabalho, o aumento das forças produtivas [i.e. produtividade do trabalho] tem de afetar os ramos da indústria cujos produtos determinam o valor da força de trabalho, portanto, aqueles ramos que ou pertencem ao círculo dos meios de subsistência habituais, ou podem substituí-los por outros meios. Porém, o valor de uma mercadoria não é determinado apenas pela quantidade de trabalho que lhe confere sua forma última, mas também pela massa de trabalho contida em seus meios de produção. O valor de uma bota, por exemplo, não é determinado só pelo trabalho do sapateiro, mas também pelo valor do couro, do piche, do cordão etc. Portanto, a queda no valor da força de trabalho também é causada por um aumento na força produtiva do trabalho[,] e por um correspondente barateamento das mercadorias[,] naquelas indústrias que fornecem os meios materiais do capital constante [—] isto é, os meios e os materiais de trabalho [—] para a produção dos meios de subsistência. Em contrapartida, nos ramos de produção que não fornecem nem meios de subsistência nem meios de produção para fabricá-los, a força produtiva aumentada deixa intocado o valor da força de trabalho.” (Marx, 2017, p. 390, grifo meu). ↩
“O preço médio do trabalho é obtido ao dividirmos o valor diário médio da força de trabalho pelo número de horas da jornada média de trabalho” (Marx, 2017, p. 614). As “unidades” deste preço médio são de “dinheiro por horas (por dia)”, p. ex. reais por hora (igual a reais num dia de jornada de h). Aqui assumimos, a fins de análise, que a força de trabalho é comprada por seu valor, i.e. que seu preço coincide com seu valor. ↩
Emprego aqui os subscritos e como indicadores da jornada mais longa e da menos longa, respectivamente. Certo cuidado deve ser tomado na leitura destas variáveis, pois a jornada mais longa é a jornada menos intensa, e vice-versa. ↩
Como sanity check, note-se que, como ex hypothesi, temos que . ↩
Afinal, “[e]le comprou a força de trabalho por um período determinado, e insiste em obter o que é seu. Não quer ser furtado.” (Marx, 2017, p. 272). ↩
Isso é um reflexo natural de que o valor é o tempo de trabalho socialmente necessário. Caso não o fosse, “quanto mais preguiçoso ou inábil for um homem, maior [seria] o valor de sua mercadoria, pois ele necessitará de mais tempo para produzi-la” (Marx, 2017, pp. 116–7). ↩
Aliás, aqui já se pode antecipar a discussão sobre salários-eficiência, ou melhor, verificar como a forma-salário mistifica a relação de valor do trabalho assalariado. Quando há um aumento de intensidade do trabalho (ceteris paribus), não é o aumento do salário que induz o aumento do nível da produção (em um dado período de tempo), mas justamente o contrário: é o nível aumentado de trabalho demandado que induz com que haja um aumento do salário. ↩
MARX, Karl. O Capital: crítica da economia política - Livro I: o processo de produção do capital. 2. ed. São Paulo: Boitempo, 2017.
SÁ BARRETO, Eduardo. Fundamentos para a crítica ecológica do capitalismo no Livro I de O Capital (ou: esse não é mais um texto sobre ruptura metabólica). In: MEDEIROS, João Leonardo; SÁ BARRETO, Eduardo (Eds.). Para que leiam O capital: interpretações sobre o Livro I. São Paulo: Usina Editorial, 2021.
SÁ BARRETO, Eduardo. Ecologia Marxista para pessoas sem tempo. São Paulo: Usina Editorial, 2022.
SMITH, Adam. An Inquiry Into the Nature and Causes of the Wealth of Nations. Londres: Methuen, 1904. v. 1