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“Se, de um lado, o agir humano não pode dispensar o conhecimento correto das causas materiais sobre e com as quais ele opera e, de outro, tem por objetivo provar esse conhecimento, então ela [a ciência] possui a capacidade de facultar uma prática que efetivamente amplie o grau de liberdade humana, através da melhor possibilidade de domínio de alguma faceta do mundo. Essa capacidade da ciência de conferir aos seres humanos um domínio mais amplo sobre o mundo, natural e social, é em si o seu conteúdo emancipatório.” (Medeiros, 2013, p. 101)

A melhor compreensão do mundo, e das práticas que se dão nele, permitem uma maior “adequação” ao que se pretende fazer. Ou seja, o desenvolvimento dessa compreensão permite com que se encontrem os meios mais adequados para a efetivação de algum Pôr Teleológico.

Dessa forma, O capitalismo possui uma relação contraditória com a criatividade humana: enquanto ele depende da melhor compreensão das leis naturais (e sociais) para executar seu télos — a valorização do valor —, ele também age de forma a coibi-la, porquanto ela também tem esse caráter emancipatório. Como O modo de produção capitalista pressupõe a divisão de classes — quem tem a propriedade (privada) dos meios de produção, e aqueles que não a têm (trabalho assalariado) —, este caráter emancipatório tem de ser coibido como for possível.

O avanço do capital estabelece, contraditória porém imanentemente, uma hipotrofia do caráter revolucionário da Ciência. Contraditoriamente, pois o capital requer que a técnica e a tecnologia sejam o mais e eficientes possível1 para obter sucesso em valorizar-se; imanentemente, pois a própria Ontologia que a sociedade capitalista pressupõe implicitamente é um realismo empírico, em que o mundo é totalmente saturado pelos fenômenos empíricos, havendo, portanto, uma naturalização e concreteza nas estruturas que já existem, em que a ciência assume um caráter instrumental, empunhada e brandida pelo capital e seus interesses.


De certa forma, é neste sentido que Marx assinala o “caráter revolucionário” da grande maquinaria:

“A grande indústria rasgou o véu que ocultava aos homens seu próprio processo social de produção e que convertia os diversos ramos da produção, que se haviam particularizado de modo natural-espontâneo, em enigmas uns em relação aos outros, e inclusive para o iniciado em cada um desses ramos. O princípio da grande indústria, a saber, o de dissolver cada processo de produção propriamente dito em seus elementos constitutivos, e, antes de tudo, fazê-lo sem nenhuma consideração para com a mão humana, criou a mais moderna ciência da tecnologia.

[…] A indústria moderna jamais considera nem trata como definitiva a forma existente de um processo de produção. Sua base técnica é, por isso, revolucionária, ao passo que a de todos os modos de produção anteriores era essencialmente conservadora.” (Marx, 2017, p. 556-7)

Ou seja, torna tais atividades humanas menos particulares, “menos mistificadas” — mais “acessíveis”, por assim dizer.


Referências

DUAYER, Mario. Teoria social, verdade e transformação: Ensaios de crítica ontológica. São Paulo, SP: Boitempo, 2023.

MARX, Karl. O Capital: crítica da economia política - Livro I: o processo de produção do capital. 2. ed. São Paulo: Boitempo, 2017.

MEDEIROS, João Leonardo. A economia diante do horror econômico: uma crítica ontológica dos surtos de altruísmo da ciência econômica. Niterói: Editora da UFF, 2013.

Footnotes

  1. Como Duayer o coloca: “O pôr a finalidade pressupõe, afirma Lukács, uma apropriação espiritual da realidade orientada pelo fim posto, pois só dessa maneira o resultado do trabalho pode ser algo novo, algo que não emergiria de maneira espontânea dos processos próprios da natureza. No entanto, por contraste, assinala Lukács, o reordenamento dos materiais e processos naturais requerido para que eles possam dar origem ao fim posto exige um conhecimento o mais adequado possível desses objetos e processos, precisamente por convertê-los de legalidades (processos) naturais em legalidades postas. Ao contrário do antropomorfismo próprio da possessão espiritual da realidade condicionada pela finalidade planejada [sic], aqui há de prevalecer o máximo de desantropomorfização, pois a consecução do fim não seria possível sem o conhecimento das propriedades dos objetos e processos envolvidos na transferência das causalidades naturais em causalidades postas.” (Duayer, 2023, p. 127; grifo meu)