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ESG como artifício retórico e hegemônico — Artigo sobre ESG
Dessa forma, ESG é mais uma manifestação dessa ”pasteurização” que o capitalismo perpetra. (O capitalismo mercadorifica ímpetos antissistêmicos; ESG é uma versão meramente formal de sustentabilidade). Como a “cheia do mainstream” (POSSAS, 1997) parece fazer na economia, como os fenômenos de récuperation1.
No fim das contas, parece estar a par da noção de Realismo Capitalista (cabe ler logo!).
Relação com o caráter revolucionário da Ciência & realismo empírico
Todo agir humano, por ser finalístico por essência, pressupõe algum conhecimento do funcionamento dos objetos de seu trabalho.
“Se, de um lado, o agir humano não pode dispensar o conhecimento correto das causas materiais sobre e com as quais ele opera e, de outro, tem por objetivo provar esse conhecimento, então ela [a ciência] possui a capacidade de facultar uma prática que efetivamente amplie o grau de liberdade humana”, através da melhor possibilidade de domínio de alguma faceta do mundo. Essa capacidade da ciência de conferir aos seres humanos um domínio mais amplo sobre o mundo, natural e social, é em si o seu conteúdo emancipatório.” (MEDEIROS, p. 101)
O avanço do Capital estabelece, contraditória porém imanentemente, uma hipotrofia do caráter revolucionário da Ciência. Contraditoriamente, pois o capital requer que a técnica e a tecnologia sejam o mais e eficientes possível2 para obter sucesso em valorizar-se; imanentemente, pois a própria Ontologia que a sociedade capitalista pressupõe implicitamente é um Realismo Empírico, em que o mundo é totalmente saturado pelos fenômenos Empíricos, havendo, portanto, uma naturalização e concreteza nas estruturas que já existem, em que a ciência assume um caráter instrumental, empunhada e brandida pelo capital e seus interesses.
Realismo empírico Atomismo social
“O atomismo social, para expressá-lo sinteticamente, nada mais é do que a concepção do mundo do realismo empírico. Em outras palavras, considerar que a realidade social seja exaurida pelos fenômenos empíricos é equivalente a admitir que esta realidade é constituída exclusivamente por indivíduos e suas ações, já que estas são as únicas coisas efetivamente empíricas existentes na sociedade.” (MEDEIROS, p. 122-3; grifo no original)
Sobre empregos & dispersão da responsabilidade
A grande tragédia do capitalismo é que tantos empregos aparentem ser inócuos — e que sejam, de fato, imediatamente inócuos —, mas que estejam “distantemente” ao uso de ações mais visivelmente nefastas. Trabalhos como análises de padrões em dados numéricos, classificação dos dados de clientes de alguma empresa, etc., são ações aparentemente triviais: o analista de dados pode facilmente não fazer ideia do que seus dados representam e fazer bem seu trabalho; os pilotos dos aviões dos quais foram jogadas as bombas de Hiroshima e Nagasaki não foram contratados para serem assassinos, e sim pilotos de avião, não mais. Essa desconexão, que sequer precisa ser dissonância cognitiva do trabalhador, ocorre justamente porque seu trabalho é meramente formal no que tange à sua essência: a extração de Mais-Valor para seu contratante.
Sobre o escândalo na Suíça de seus investimentos no Sul Global
Ocorre, portanto, uma tragédia em dois níveis. Há o escândalo superficial, embora espalhafatoso, de europeus ante atividades ilegais em que seus investimentos porventura esbarraram, um escândalo porquanto agora todos enxergam que o repugnante rei está nu, o que evidentemente não orna bem com o chá da tarde. Ultrajados que o mundo não é limpo, puro, justoo, como ele (obviamente) é na Europa. Que o mundo está se recusando à “normalidade” de não dar notícias ruins, e sim de bons resultados de negócios, bons rendimentos e business as usual. Quem sabe se sentem-se mais ultrajados de saber do lado negro de seus negócios do que das consequências em si.
E há a resignada realização de que o mercado, por si só, talvez não consiga resolver todos os problemas a que se propõe. Os burros, por assim dizer, já foram à água, e não se pode impedir que eles a bebam.
O caso do ESG é um caso paradigmático da contradição entre valores e ontologia. Deseja-se que haja maior sustentabilidade, combate à crise climática, menos desmatamento etc. etc., mas, ao mesmo tempo, pressupõe-se a ontologia conservadora do capitalismo, seu Empirismo e naturalização das estruturas vigentes, pressupostos ou conscientemente — “there is no alternative” — ou acriticamente, em cujo talvez o façam até mais ferreamente, posto que sequer sabem (ou querem saber) de suas restrições.
O ESG ilustra bem a precedência ontológica que o estado das coisas — estruturas naturais e sociais — possuem ante os julgamentos que delas são feitos, de tal forma que os “ideais por uma nova economia” são cooptados pela própria realidade que (supostamente) pretendiam reformar, reduzindo-se a meras reproduções do status quo (embora travestidas de seu oposto).
Referências
- DUAYER, Mario. Teoria social, verdade e transformação: Ensaios de crítica ontológica. São Paulo, SP: Boitempo, 2023.
- MEDEIROS, João Leonardo. A economia diante do horror econômico: uma crítica ontológica dos surtos de altruísmo da ciência econômica. Niterói: Editora da UFF, 2013.
- POSSAS, Mario Luiz. A cheia do “mainstream”: comentário sobre os rumos da ciência econômica. Revista de Economia Contemporânea, 1997.
- TELÉSFORO, João. Confissões do capitalismo “verde”: lucrando com a tragédia climática e com placebos ESG. In: LUEDY, Laura (Org.). Tempo fechado: colapso ecológico e capitalismo. Tinta Vermelha. São Paulo: Boitempo, 2025.
Footnotes
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Cf. Wikipedia: “the process by which politically radical ideas and images are twisted, co-opted, absorbed, defused, incorporated, annexed or commodified within media culture and bourgeois society, and thus become interpreted through a neutralized, innocuous or more socially conventional perspective.”. ↩
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Como Duayer o coloca: “O pôr a finalidade pressupõe, afirma Lukács, uma apropriação espiritual da realidade orientada pelo fim posto, pois só dessa maneira o resultado do trabalho pode ser algo novo, algo que não emergiria de maneira espontânea dos processos próprios da natureza. No entanto, por contraste, assinala Lukács, o reordenamento dos materiais e processos naturais requerido para que eles possam dar origem ao fim posto exige um conhecimento o mais adequado possível desses objetos e processos, precisamente por convertê-los de legalidades (processos) naturais em legalidades postas. Ao contrário do antropomorfismo próprio da possessão espiritual da realidade condicionada pela finalidade planejada [sic], aqui há de prevalecer o máximo de desantropomorfização, pois a consecução do fim não seria possível sem o conhecimento das propriedades dos objetos e processos envolvidos na transferência das causalidades naturais em causalidades postas.” (DUAYER, p. 127; grifo meu). ↩