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Definições prévias
Machinery Question
“The Machinery Question was canonically established by David Ricardo in the chapter ‘On Machinery’ that was added to the 1821 edition of his Principles of Political Economy. Ricardo’s thesis was the following: while it was true that new machinery would cheapen commodity prices, nonetheless the working class would not benefit from this, since wages would be reduced by the competition among workers which is caused by technological unemployment.” (Pasquinelli, 2023, p. 80)
Labor theory of the machine
Labor theory of the machine: “a new machine comes to imitate and replace a previous division of labour. As examined previously, this is an idea already formulated by Adam Smith, but better articulated by Babbage due to his greater technical experience” (Pasquinelli, 2023, p. 104)
Babbage Principle (“divisão permite planejamento”)
“The Babbage principle states that the organisation of a production process into small tasks (the division of labour) allows for the calculation and precise purchase of the quantity of labour that is necessary for each task (the division of value). The division of labour establishes a privileged perspective for the surveillance of labour, but also helps to modulate the extraction of surplus labour from each worker according to need. In more analytical terms, the Babbage principle posits that the abstract diagram of the division of labour helps to organise production while at the same time offering an instrument for measuring the value of labour. In this respect, the division of labour provides not only the design of machinery but also of the business plan.” (Pasquinelli, 2023, p. 63)
“Babbage principle”/principle of labor calculation: “It states that the organisation of a production process in small tasks (division of labour) allows exactly the necessary quantity of labour to be purchased for each task (division of value). In this respect, the division of labour provides not only the design of machinery but also an economic configuration to calibrate and calculate surplus labour extraction.” (Ibid.)
“Ultimately, the Babbage principle represents a machine theory of value – that is, a model to mechanically represent and compute labour costs and capital investments. In a highly formalised way, it can be said that the labour theory of the machine and the machine theory of value together form a technoeconomic principle according to which the machine is built by the division of labour in order to achieve a more accurate calculation and extraction of surplus value.” (Pasquinelli, 2023, p. 65)
Mini-essays
A maquinaria é consequência da divisão social do trabalho
“The ‘mechanical monster’ of the industrial factory was summoned first by labour and then accelerated by steam power, not the other way around. Marx was clear: the genesis of technology is an emergent process driven by the division of labour. It is from the materiality of collective labour, from conscious and unconscious forms of cooperation, that extended apparatuses of machines emerge. Here, intelligence resides in the ramifications of human cooperation rather than in individual mental labour. Machine intelligence mirrors, embodies, and amplifies the analytical intelligence of collective labour.” (Pasquinelli, 2023, p. 108)
“It was not the invention of the steam engine (means of production) that triggered the Industrial Revolution (as it is popular to theorize in the ecological discourse), but rather the developments of capital and labour (relations of production) demanding a more powerful source of energy” (Pasquinelli, 2023, p. 107)
O avanço da divisão do trabalho permite a separação trabalho-energia
“Malm has argued, understandably, that the rise of the industrial mode of production was propelled by a stable and versatile form of energy, which was found in coal after the use of waterpower. But according to him, coal contributed to the acceleration of industrial capitalism not just because of its energetic potential, but because its physical properties, such as lightness, homogeneity, and measurability, matched perfectly the new abstract dimensions of capital. Steam engines replaced water mills not because coal was cheaper and more abundant than water, but because it provided a more stable flow of power than rainfalls and allowed factories to move close to urban areas, where the working class was living at the time. Malm has registered in this way the energetic rationale for the slow emergence of fossil capitalism out of the manufacturing age. It took roughly forty years for the steam engine to be adopted in the place of the water mill: if coal came to be used across the full spectrum of production, it was because it was the most adequate source of abstract energy, where ‘abstract’ means easily computable in terms of cost, transport, stock, performance, and social organisation.” (Pasquinelli, 2023, p. 122-3)
Com o avanço do Modo de Produção Capitalista, chega um momento em que os trabalhadores não possuem braços suficientes para o ritmo demandado pelo capital. Faz-se necessário, então, que suas ferramentas tornem-se mais que “extensões de seus membros”1, e que ajam como genuínos órgãos extras.
Com o tempo, tais órgãos tornam-se tão hábeis que suas contrapartes de carne e osso tornam-se-lhes detrimentais, sendo estas últimas passíveis de amputação. Passado essa “descamação”, o corpo que resta não precisa mais de pão e circo para funcionar, e sim de óleo e alavancas; o que antes chamava-se de “meios de subsistência” agora é combustível; a energia química dos alimentos, que antes era digerido implicitamente pelo metabolismo humano, agora é energia química do carvão e gasolina, explicitamente combustada. Assim como as mercadorias “não podem ir por si mesmas ao mercado”2, as máquinas não conseguem se alimentar por conta própria, não podem ir ao mercado para abastecerem-se a si mesmas.
É neste contexto que a Termodinâmica se desenvolveu como um ramo da Física: viabilizar e aprimorar máquinas a vapor à época do século XIX. Foi ali que começou o emprego consciente da “energia” (no sentido moderno do termo) nos processos (de trabalho) humanos. Não é à toa que a Termodinâmica possui uma abundância de ciclos termodinâmicos (ciclo de Carnot, ciclo de Otto, ciclo de Stirling, ciclo de Rankine, ciclo de Diesel…): porque esta disciplina da Física surgiu justamente como complemento do desenvolvimento industrial de motores, os quais funcionam na base de ciclos, engrenagens, rotações, i.e. conversão de energia química (quebra de cadeias de hidrocarbonetos de carvão, gasolina…) em energia rotacional/cinética. (O estudo e reprodução desses ciclos físicos em espaços de fase abstratos, como ciclos matemáticos/geométricos, é uma abstração posterior, uma formalização.)
O surgimento da maquinaria ilustra e ofusca o trabalho vivo
É justamente da Divisão Social do Trabalho que vem primeiro a especialização do trabalho — e, portanto, das ferramentas do trabalho —, e depois a mecanização, i.e. a criação de ferramentas que acumulem a função de outras tantas ferramentas. Ou seja, é da atomização/especialização do trabalho em partes menores que vem a especialização das ferramentas do trabalho, e é da racionalização do trabalho — de sua consciente orquestração, não mais natural-espontânea3 — que anunciam-se os autômatos industriais.
Dessa forma, o surgimento da máquina destaca o trabalho subsumido pelo capital, ao mesmo tempo que o ofusca. Destaca o trabalho subsumido pelo capital pois, assim como o capital emprega mãos individuais, mas usufrui do trabalhador coletivo, o capital compra partes individuais de máquinas, mas usufrui do produto da linha inteira de montagem. Ofusca o trabalho subsumido pelo capital pois, assim como o trabalho pretérito ofusca o trabalho vivo empregado, o sistema metálico de produção ofusca a divisão social do trabalho à qual este sistema remete; as funcionalidades da máquina, seu modus operandi, seu output, seu encaixe no resto da “fábrica”’, tudo isso torna-se sua natural raison d’être, torna-se seu papel no enorme ecossistema industrial, naturalizando-se toda a história natural-social através da qual perpetrou-se a seleção natural-social-industrial que permitiu a “sobrevivência” e proliferação de máquinas deste tipo e não de outras, por tal tempo e não por menos. É cativante, portanto, ver o aspirante a capitalista se deixar levar pelo curriculum vitae da máquina4 que ele deseja empregar, ao mesmo tempo que se esquece que, assim como as tartarugas de Galápagos, máquinas não conseguem se levantar sozinhas quando tombam, crasham ou pifam — por algum motivo desconhecido e diabólico, a Natureza fez com que ele sempre precise ter técnicos a postos para cada máquina que o seduza!
Energia enquanto potentia, como FT
Energia é potentia, ao menos quando se fala dela abstratamente, seja ante festum ou post festum, antes ou depois de sua efetivação. 1 joule de energia é o requerido para mover 1 newton de energia por 1 metro, mas isso só é relevante de se saber, no que tange ao capitalista, para fins de custos (e.g. quanto carvão usar) e mitigação de desperdícios (e.g. quanto carvão não usar).
É análogo à Força de Trabalho: quando in potentia, ela é amorfa e geral, enquanto in actu ela é bem delimitada e particular; só é passível de cálculo quando “abstratificada”, mas, quando tal, “não tem cor nem cheiro”, pois, quando está em ação, não há mais espaço para “e se”s: o planejamento só ocorre antes da guerra, e durante ela há espaço somente para pequenos reajustes táticos, ou seja, potencialidades ainda não efetivadas e que, por o serem, ainda são passíveis de cálculo antes de sua efetivação.
É justamente neste sentido que tanto a força de trabalho quanto meios de produção, e “energia”, são passíveis de serem vistos pelo capital como insumos, formas distintas de seu próprio “corpo-capital”, Fatores de Produção. Daqui, é um pulo de pensar energia como um fator de produção tout court!
Gesamtarbeit, “microtarefas” e inteligência artificial
“The industrial age was also the moment of the originary accumulation of technical intelligence as the dispossession of knowledge from labour. AI is today the continuation of the same process: it is a systematic mechanisation and capitalisation of collective knowledge into new apparatuses, into the datasets, algorithms, and statistical models of machine learning, among other techniques. Ultimately, it is not difficult to imagine AI as a late avatar of the collective worker, the Gesamtarbeiter that was for Marx the main actor of industrial production.” (Pasquinelli, 2023, p. 94)
O ponto nevrálgico da atomização dos produtos do trabalho vem da absoluta divisão do trabalho, que culmina no atual esforço deliberado — e, neste sentido, Trabalho, por ter Pôr Teleológico — de bilhões de indivíduos ao redor do mundo, seja em inócuos CAPTCHAs, seja na moderação de conteúdos explícitos de redes sociais ou na validação de modelos de machine learning.
É tanto mais suspeito que estas “microtarefas” também exerçam alienação sobre seus executores: marcar todas as imagens que contêm pontes serve para quê? Serve a um modelo de câmeras de monitoramento? De veículos de direção autônoma? De drones de guerra? Nunca sabe-se seus propósitos, e, em verdade, sequer importa, pois o minúsculo incômodo do indivíduo que cumpre tais “testes” será esquecido em segundos. Junta-se, portanto, o conveniente ao desejado, pois o ínfimo fardo a muitos torna-se um assombroso resultado em seu agregado5, algo que cientistas da computação há mais de 15 anos veriam como um pipe dream, particularmente antes das competições de machine learning dos anos 2010.6
O trabalho, agora, é o mais pulverizado que já foi na história: Newton enxergara tão longe porque estava sobre os ombros de gigantes, e a inteligência artificial torna-se tão capaz em suas tarefas quanto maiores forem as dunas de trabalho pulverizado sobre as quais ela assenta-se.
Referências
- MARX, Karl. O Capital: crítica da economia política - Livro I: o processo de produção do capital. 2. ed. São Paulo: Boitempo, 2017.
- PASQUINELLI, Matteo. The eye of the master: a social history of artificial intelligence. London; New York: Verso, 2023.
Footnotes
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“…um órgão que ele [o sujeito do trabalho] acrescenta a seus próprios órgãos naturais” (Marx, 2017, p. 257). ↩
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(Marx, 2017, p. 159). ↩
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Citação de Marx de como o capital permite a quebra do “conservadorismo” da tradição acrítica de trabalho, que ossificou os ofícios de sociedades, mistificou com religião etc etc. Cap. Maquinaria, circa p. 557, cf. Fichamento Capital I Cap 13 - Maquinaria e Grande Indústria. ↩
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E, hoje em dia, do algoritmo e da “tão falada IA” — “o que quer que isso seja”, murmura o capitalista para si próprio, enquanto conta cédulas de dinheiro com as mãos. ↩
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Mutatis mutandis quanto ao Tempo Excedente de Trabalho: “…tal circunstância é, certamente, uma grande vantagem ao comprador [capitalista], mas de modo algum uma injustiça para com o vendedor [trabalhador].” (Marx, 2017, p. 270). ↩
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Como a ImageNet Large Scale Visual Recognition Challenge (2010-2017). Note-se que Attention Is All You Need, que inaugurou o paradigma dos transformers (e.g. ChatGPT), é de 2017! ↩