up:: Momento Predominante

“Marx analisa as inter-relações reais começando pelo caso mais complexo, o da relação entre produção e consumo. Aqui, como também nas demais análises, o primeiro plano é novamente ocupado pelo aspecto ontológico, segundo o qual essas categorias, embora apresentem entre si, mesmo singularmente, inter-relações com frequência muito intricadas, são, todas elas, formas de ser, determinações da existência e, enquanto tais, compõem uma totalidade, só podendo ser compreendidas cientificamente enquanto elementos reais dessa totalidade, enquanto momentos do ser. Disso resultam duas consequências: por um lado, cada categoria conserva sua própria peculiaridade ontológica e a manifesta em todas as interações com as demais categorias, razão pela qual tampouco tais relações podem ser tratadas por meio de formas lógicas gerais; cabe compreender cada uma delas em sua peculiaridade específica; por outro lado, essas interações não são de igual valor, nem quando consideradas como pares nem quando tomadas em seu conjunto. Ao contrário, impõe-se, em cada ponto, a prioridade ontológica da produção enquanto momento predominante.” (Lukács, 2012, pp. 331–2, grifo meu)

“Em Marx, domina o momento do ser: essas determinações são momentos reais de complexos reais em movimento real, e só a partir desse duplo caráter de ser (ser em interação e em conexão complexa e ser ao mesmo tempo no âmbito de sua peculiaridade específica) é que podem ser compreendidas em sua relação reflexiva. Na dialética materialista, na dialética da própria coisa, a articulação das tendências realmente existentes, frequentemente heterogêneas entre si, apresenta-se como solidariedade contraditória do par categorial.” (Lukács, 2012, p. 332, grifo meu)

Produção e consumo (de valores de uso) são momentos específicos de um movimento total: o da produção e reprodução do ser social, produção lato sensu.

São momentos que estão em relação reflexiva um com o outro (dentro desta totalidade): A produção produz o consumo, no sentido de dar-lhe seu objeto, mas O consumo é um pressuposto ideal da produção, dando-lhe a finalidade de seu Pôr Teleológico.

Não obstante tal relação, porém, A produção possui prioridade ontológica com relação ao consumo: embora ambas determinem-se umas às outras, é a produção que ontologicamente precede o consumo, pois não é possível consumir algo que não foi produzido previamente.1 De fato, como Lukács o põe,

“nenhuma interação real (nenhuma real determinação de reflexão) existe sem momento predominante. Quando essa relação fundamental não é levada na devida conta, tem-se ou uma série causal unilateral e, por isso, mecanicista, simplificadora e deformadora dos fenômenos, ou então aquela interação carente de direção, superficialmente rutilante, cuja ausência de ideia Hegel criticou com razão em seu tempo, mas sem encontrar solução para o problema.” (Lukács, 2012, p. 334)


Referências

Footnotes

  1. Em particular no modo de produção capitalista.

LUKÁCS, György. Para Uma Ontologia Do Ser Social. 1. ed. [S.l.]: Boitempo, 2012.