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“Conhecer o mundo tal como ele é para mudá-lo em nosso (humano) proveito.” (Duayer, 2023, p. 128)

Anotações 04/06/25

Atividade humana como pôr teleológico

O Trabalho consiste, primeiramente, na idealização de alguma finalidade, a qual o Processo de Trabalho busca efetivar.

Para isso, não basta idealizar somente a finalidade, como também os meios para alcançá-la. Nisso, faz-se necessário um conhecimento prévio não só dos materiais (Matéria-Prima) empregados, como também dos Meios de Produção envolvidos no processo. Este conhecimento1 é tão adequado quanto mais “fidedigno” a seu objeto2 ele for, ou, como Duayer coloca, quanto mais “desantropomorfizado” este conhecimento for.3

Neste fazer, fazem-se escolhas dentre diversas possibilidades no mundo — ou seja, há uma forma de valoração, tanto do material/objeto do trabalho, quanto do processo com que ele é empregado. Dentre as possíveis alternativas — e elas são alternativas porquanto a ação poderia efetivamente ter se dado de outra forma —, forma-se um juízo de valor (?), através da experiência, de qual processo é o mais “adequado”/“aderente” ao alcance de dado fim. Portanto, a noção de “valor”, enquanto valoração de alternativas como “mais adequadas” e “menos adequadas”, é um pressuposto da ação humana.4

Alteração da natureza através do trabalho

Objetos da natureza adquirem — ou melhor, têm a si atribuída — uma valoração “de uma perspectiva externa” (Medeiros, 2016, p. 181)

Objetos “parid[o]s pelo agir humano”, na sociedade, já surgem “como objetivações de escolhas, como valores que se realizam” (Ibid.). Não só objetos, mas ações são passíveis de escolhas — logo, de valoração —; portanto, a atividade humana é, em geral, “autoavaliada”.

Neste fazer, o ser humano altera não só a natureza, mas também sua própria natureza: “[atuando] sobre a natureza externa e modificando-a por meio desse movimento, ele modifica, ao mesmo tempo, sua própria natureza.” (Marx, 2017, p. 255).

Altera não só seu caráter enquanto indivíduo humano (durante o processo de trabalho, pela mobilização de músculos etc etc), como também seu hábitat. Portanto, por meio destas condições “pré-postas”, o trabalho atual é condicionado. (?)

Anotações 11/06/25

Sobre pressupostos

“O pôr a finalidade pressupõe, afirma Lukács, uma apropriação espiritual da realidade orientada pelo fim posto, pois só dessa maneira o resultado do trabalho pode ser algo novo, algo que não emergiria de maneira espontânea dos processos próprios da natureza. No entanto, por contraste, assinala Lukács, o reordenamento dos materiais e processos naturais requerido para que eles possam dar origem ao fim posto exige um conhecimento o mais adequado possível desses objetos e processos, precisamente por convertê-los de legalidades (processos) naturais em legalidades postas. Ao contrário do antropomorfismo próprio da possessão espiritual da realidade condicionada pela finalidade planejada [sic], aqui há de prevalecer o máximo de desantropomorfização, pois a consecução do fim não seria possível sem o conhecimento das propriedades dos objetos e processos envolvidos na transferência das causalidades naturais em causalidades postas.” (Duayer, 2023, p. 127; grifo meu).

Nesse ínterim, a própria ciência, “cuja gênese pode ser remetida aos trabalhos mais rudimentares, é o momento de investigação dos meios progressivamente autonomizados em relação às finalidades dos processos de trabalho particulares”; portanto, passa a ter como finalidade “a verdade, ou seja, o conhecimento mais adequado possível da realidade em si mesma” (Ibid. p. 128)

Nesse sentido, o conhecimento do Modo de Produção Capitalista é necessidade para que se o supere; de vê-lo como histórico, de entender suas legalidades necessárias, suas limitações — ante ao quê? Parece faltar o fim que buscamos, e referente ao qual contrastamos o “funcionamento” (e compreensão) do capitalismo… Para mim está claro: o objetivo do homem é ser o bastião da vida, e, no tocante a isso, o capitalismo opõe-se violentamente.


Referências

  • DUAYER, Mário. Jorge Luis Borges, filosofia da ciência e crítica ontológica: verdade e transformação social. In: DUAYER, Mario (Ed.). Teoria social, verdade e transformação: Ensaios de crítica ontológica. São Paulo: Boitempo, 2023.
  • LUKÁCS, György. Para uma ontologia do ser social, II. 1. ed. São Paulo: Boitempo, 2013.
  • MARX, Karl. O Capital: crítica da economia política - Livro I: o processo de produção do capital. 2. ed. São Paulo: Boitempo, 2017.
  • MEDEIROS, João Leonardo. Se Marx tivesse escrito uma ontologia da sociedade, quais seriam seus elementos fundamentais? Revista Outubro, v. 26, p. 169–194, 2016.
  • MIRANDA, Gutemberg. A origem social do valor: valor-de-uso e valor-de-troca numa perspectiva dialética. PRIMORDIUM, p. 235, 2021.

Footnotes

  1. Dimensão Transitiva da Ciência.

  2. Dimensão Intransitiva da Ciência.

  3. Vide anotações 11/06/25 abaixo.

  4. Eu diria que há alguma forma disso em outros seres vivos, mas a ver…