up:: 011c MOC Capital III

“O lado momentaneamente mais fraco da concorrência é, ao mesmo tempo, aquele no qual o indivíduo atua independentemente da massa de seus concorrentes e, com frequência, diretamente contra ela, tornando perceptível precisamente assim a dependência de uns em relação aos outros, ao passo que o lado mais forte [da concorrência] sempre enfrenta seu oponente como uma unidade mais ou menos compacta. Se para essa espécie determinada de mercadorias a demanda for maior que a oferta, um comprador oferecerá mais que o outro — dentro de certos limites — e, desse modo, encarecerá a mercadoria para todos acima do valor de mercado [preço de mercado], enquanto que, por outro lado, os vendedores procurarão vender conjuntamente a um preço de mercado mais alto. Se, por sua vez, a oferta for maior que a demanda, um começará a liquidar a mercadoria a um preço menor, e os outros terão de segui-lo, enquanto os compradores se esforçarão em conjunto para reduzir o preço de mercado o máximo possível abaixo do valor de mercado. A ação conjunta só interessa a cada um deles na medida em que se ganhe mais unindo-se a ele do que estando contra ele. E essa ação cessará tão logo esse interesse coletivo caia por terra e cada indivíduo trate de se arranjar da melhor maneira possível por suas próprias forças. Além disso, se um deles produz mais barato e pode liquidar uma quantidade maior, apropriar-se de uma fatia maior do mercado, vendendo abaixo do preço corrente de mercado ou do valor de mercado, ele o faz, e assim tem início a ação que pouco a pouco obriga os outros a introduzir o tipo de produção mais barato e que reduz o trabalho socialmente necessário a uma nova medida menor. Se um lado tem a supremacia, ganha cada um dos membros que a integram; é como se eles tivessem de impor um monopólio comum. Se um lado é o mais fraco, cada membro pode procurar por sua própria conta ser o mais forte (por exemplo, quem trabalha com custos menores de produção) ou pelo menos arranjar-se da melhor maneira possível; nesse caso, ele está pouco se lixando [sic.] para seu vizinho, embora sua própria ação afete não só ele, mas também a todos os seus companheiros.” (Marx, 2017)

O conceito de concorrência em Marx trata sobre uma coerção social que impele as ações individuais de distintos capitais. Naturalmente, por tratar-se de uma força social, ela é também, por sua vez, gerada pela ação destes capitais, mas o efeito resultante de suas próprias ações apresentam-se-lhes como “força estranha” que os compele por motivos ulteriores, “…como o poder de uma vontade alheia que submete seu agir ao seu próprio objetivo.”1


Referências

MARX, Karl. O capital: crítica da economia política - Livro III: o processo global da produção capitalista. 1. ed. São Paulo: Boitempo, 2017.

Footnotes

  1. (Marx, 2017b, p. 407). O contexto desta citação trata sobre a alienação dos trabalhadores individuais ante suas funções e cooperação, as quais aparecem-lhes, “idealmente, como plano preconcebido e, praticamente, como autoridade do capitalista”, ao que se segue o supracitado. Mutatis mutandis quanto à concorrência dos capitais: eles veem-se enquanto indivíduos, e parecem confrontar-se com uma “força da natureza” a eles oposta, o Mercado com M maiúsculo.

MARX, Karl. O capital: crítica da economia política - Livro III: o processo global da produção capitalista. 1. ed. São Paulo: Boitempo, 2017a.
MARX, Karl. O Capital: crítica da economia política - Livro I: o processo de produção do capital. 2. ed. São Paulo: Boitempo, 2017b.