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“…prometo me dedicar, com toda probidade, ao exercício profissional na pesquisa científica, no ensino, e na divulgação científica, sempre buscando a transmissão da verdade, e trabalhar, na medida de minhas forças, pelo progresso da cultura do Brasil” (Discurso de juramento Licenciatura em Física USP)


[Anotação de 03/06/25]
Há aqueles (na Economia) que refugiam-se nas palavras efêmeras, e aqueles que se deixam levar pela formalidade matemática. Uns são repetidores do passado, imperfeitos telefones sem fio; outros sequer pensam no passado, entretendo-se com seu intellectual play matemático.


[Anotação de 10/07/25]

Um economista que somente preza pela matemática em seu ofício não é um economista — é um matemático aplicado de menor calão. É, em verdade, um mero tecnocrata, posto que não possui o mesmo apreço e rigor pelos objetos matemáticos com que trabalha um (verdadeiro) pesquisador de Matemática, seja ela pura ou aplicada. ==(Cabe elaborar melhor)==

Dessa forma, um economista-tecnocrata torna-se totalmente passivo às problemáticas subjacentes aos problemas que investiga — sina esta, inclusive, de muitos cientistas que enveredam pelo “algoritmomorfismo”1 das ciências sociais, e.g. sociofísica, econofísica, etc. —, restringindo-se ao “calar a boca e fazer as contas” tão conhecido pelos (pós-)graduandos de Física do século XXI. Alegam que “têm matemática nas veias”, mas — pobres coitados! — calculam equilíbrios estáticos em sistemas dinâmicos, mas nem sequer sabem o que é um stable manifold; fazem estatística, e nem sabem o que é uma integral de Lebesgue nem -álgebras2. Creem que é magicamente conveniente poder passar a derivada “para dentro” da integral; fazem aproximações de Maclaurin sem sequer saber disso, quem dirá saber se são aproximações indevidas ou não.3

Ser um cientista tecnocrata — seja na Computação, Engenharia ou Economia — significa estar disponível aos interesses alheios e de seus respectivos desígnios, sejam eles em prol do bem comum ou, o mais ubíquo, do bem privado. São passíveis de serem meros joguetes, peões movimentados por entre regras e propósitos de um jogo que não lhes diz respeito, e o qual emprega-os e, eventualmente, descarta-os.

Não lhes concerne conhecer a verdade, e sim aquilo que funciona. O utilitarismo arraiga-se tal qual névoa densa ao redor de seus cérebros, tornando o mundo embaçado o suficiente para que possam dedicar-se a seus cálculos sem perturbações éticas e morais ao alcance de suas vistas.

De tantos séculos de uso, parece que a lâmina de Ockham perdeu seu fio e ficou cega: a extravagância e opulência de hipóteses e variáveis dos modelos econômicos de hoje dão inveja aos mais despudorados fenomenologistas na Física Experimental. O mundo inteiro parece caber em uma regressão linear com variáveis suficientes. Essa era a crença da ingenuidade dos pesquisadores de Machine Learning de outrora, e da confiança petulante dos economistas de hoje, ao ponto que dizer para um econometrista que seu modelo econômico está overfit pode até ser interpretado como um elogio.


[Anotações de 03/06/25]
Contentam-se hoje em ser meros intérpretes dos números dados que lhes chegam à mesa: limpam-os e vestem-os de regressões e testes, sem motivação clara de por que o fazem. Abstêm-se de sugerir a natureza subjacente dos fenômenos que seus dados representam, tal qual o gentio que teme pôr a nu a obra-prima de Deus, de macular Sua assombrosa criação com descabidas descrições mundanas. Esquecem-se, portanto, que o pecado original já foi perpetrado: já devassamos o mundo inteiro com nossas próprias categorias há muito tempo. E, em verdade, nunca pudemos não fazê-lo: ser humano é justamente buscar no mundo as coisas que “nos dizem respeito”, de projetar-nos no mundo para que nele nos vejamos como se no refletir de um espelho, de regozijarmo-nos com a compreensibilidade “milagrosa” do mundo.


Restrito pelo próprio paradigma e ontologia que pressupõe (implicitamente), o tecnocrata não consegue senão reproduzir resultados deles derivados, como se, por serem logicamente derivados, fossem também efetivamente verdadeiros. (?) A névoa que comprime seus cérebros torna-se um verdadeiro labirinto pelo qual são forçados voluntariamente a perambular, e de cujas paredes etéreas não conseguem sequer conceber de transpassar; e, dessa forma, trilham caminhos que podem até nunca terem sido trilhados antes — logo, realmente des-cobrindo o véu do mundo —, mas perdem a visão panorâmica através da qual veriam a futilidade de seguir caminhos tão “arbitrários” e desnecessariamente tortuosos.

Eficiência enquanto fetiche (11/07/25 Dia 18/07/25)

O termo “eficiência” tem uma dupla fama: é amado, e é odiado. Amado por aqueles que nela veem a redenção dos males que acometem a humanidade: a crise climática, as crises políticas, as crises sociais, etc. Odiado por aqueles que nela veem o fetiche que o capital incute sobre nossas vidas: viver mais rápido, ser mais produtivo, buscar maior custo-benefício, etc.

Como tantas coisas, a verdade está mais no meio. É claro que todos apreciam uma ponte que seja construída com materiais eficientes à sua função (resistência ao peso, pressão, estresse, e etc.); todos apreciam um edifício que seja eficiente em sua estabilidade, resiliência, etc. [Mas isso é "eficiência", ou é "cumprir bem seu papel"? Há diferença? Porque, em Economia, tem um sentido diferente: maior output para um dado input.]

Mas perceba-se que não é meramente por sua eficiência que eles são mais úteis, e sim de que eles conseguem ser mais úteis ao serem mais eficientes. É difícil de ser tão empolgados com a eficiência sem precedentes da bomba atômica, ou, mais recentemente, da cornucópia maldita que aflige Gaza. Um tecnocrata pode se regozijar com que um ataque de drones seja capaz de derrubar edifícios inteiros remotamente, ou de que fuzis de um modelo X não sobreaqueçam tanto quanto os de modelo Y; devemos nós também sentir o prazer da otimização de tais artefatos nefastos?


Referências

  • GEORGESCU-ROEGEN, Nicholas. The entropy law and the economic process. Cambridge (Mass.) London: Harvard University Press, 1971.

Footnotes

  1. Termo cunhado por (Georgescu-Roegen, 1971).

  2. Sigma-algebra.

  3. Um exemplo tosco é a aproximação da Taxa Real de Juros como sendo , sendo esta uma aproximação da verdadeira fórmula , supondo . Quantos graduandos aprenderam somente a primeira fórmula e nunca viram a segunda? Quanta “matemática nas veias”!