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09/04/25: Colonialismo de datacenters

Sobre os planos da Malásia de criar data centers em seu território (em part. no município de Johor). Menciona-se que surge uma “espécie” de colonialismo: empreiteiras estrangeiras se aproveitam de recursos baratos (terra/real estate, água, eletricidade) para seus próprios propósitos, em detrimento dos interesses locais (e.g. power outages, estresse hídrico: externalidades).

A história se repete ao redor do mundo; inclusive me lembra de algum artigo no Substack sobre ruídos de data centers.
[Eu não lembro qual era, se era um artigo do Substack. Sei do vídeo: I Live 400 Yards From Mark Zuckerberg’s Massive Data Center (More Perfect Union)]

29/04/2026

“To power AI, energy and tech companies are turning to fossil fuels, which they regard as more reliable and readily available than wind, solar, or nuclear.” (Wong, 2026)

Emprego de carvão, gás natural e petróleo a curto, e já prevendo a instalação de usinas nucleares para emprego a longo prazo. Até mesmo a energia nuclear, jogada para escanteio pelo lobby dos combustíveis fósseis há décadas, está reconquistando seu lugar na economia ( to-be-elaborated fontes?). (Aqui, em particular, toda ilusão de que “o capital é crescentemente eficiente” se esvai: o que importa, de fato, é a produção de capital, custe o que custar — o que não impede, claro, que hajam esforços de aumentos de eficiência por cientistas, por exemplo. É o caso atual em meados de 2020, com ganhos de eficiência principalmente vindos da DeepSeek.)

A ingenuidade dos apologistas do capital justificariam o “passo na direção errada” quanto à sustentabilidade como, por exemplo, dizendo que

the best legacy we can pass on to our descendants is a high level of GNP per capita to provide them with the wherewithall to tackle the problems they may really face — which might be very different from those that we, with our essentially myopic view of the future, may mistakenly project upon them.” (Brookes, 1990, p. 319)

Data centers requerem não só energia elétrica para computação, mas também água para resfriamento de seus componentes — além do espaço físico em que têm de ser instalados. E isso sem contar com o incômodo que seu funcionamento causa aos moradores “próximos”: to-be-elaborated =casos de reportagens no Youtube sobre barulho e luz=

Há uma construção acelerada de data centers hoje, e, não chocantemente, têm mais viabilidade serem aprovados em zonas de sacrifício, em regiões periféricas, seja dentro de países do Norte Global — p ex. Boxtown, Memphis (cidade formada por escravos fugitivos à época da Secessão [?]) (Wong, 2026), ou em Xinjiang na China (Ha; Yang; Ng, 2025) — ou em países no Sul Global, p. ex. no Brasil (Martins, 2025, 2026; Martins; Amorim, 2025), Chile to-be-elaborated , Malásia (Tan, 2025) e outros.

Tais data centers — ou melhor, os conglomerados que os constroem — podem acabar “colonizando” suas cidades-hospedeiras, tornando a receita destas inextricavelmente dependente de sua atividade e presença. Algo análogo ocorre com as mineradoras em Minas Gerais: cidades tornam-se reféns econômicos destas corporações. É o caso de Loudoun County, Virgínia (Wong, 2026).

Quanto à atual “corrida armamentista” do setor da IA entre os EUA e a China: enquanto a última possui abundância de fontes energéticas com que abastecer seus data centers (construídos em escala crescente), os primeiros têm a expansão de data centers restrita não só pela escassez de fontes energética suficientes, quanto pela dependência de componentes eletrônicas1 — transformadores elétricos, baterias, switchgear etc. —, advindas justamente da China (Forgash; Rathi, 2026), gargalo de demanda este que não é amainado pela guerra tarifária que Trump proclamou no “Liberation Day” em abril de 2025.2 No fim das contas, é contraditório: tanto os EUA quanto a China buscam a supremacia no terreno da IA, vista até mesmo como questão de segurança nacional (Kollar, 2025), porém, no atual estado de coisas, um depende do outro para consegui-lo: os EUA dependem de componentes eletrônicas cruciais que não produzem, e a China depende dos chips avançados que têm de importar.

Não obstante isso, há um ímpeto crescente à construção de data centers, o que tem se prestado, não raro, a comparações com a bolha das ponto-com, na qual houve uma aceleração instalação de fibras óticas (Kollar, 2025a). É justamente a expectativa alta pela demanda destas capacidades instaladas o que impulsiona sua produção e oferta; após o estouro da bolha — como vimos em 2000 com as ponto-com, e potencialmente em meados da década de 2020 com a bolha de IA —, resta um excedente de capacidade instalada frente a uma demanda não só não-efetivada, quanto decrescente em decorrência da recessão que se segue. O que resta, após o estouro de tais bolhas, são as cinzas do mercado que se sobreaqueceu; cinzas, porém, também servem de adubo ao solo, e tal capital morto, sejam dark fibers ou data centers desativados, pode ser trazido novamente à vida por capitais futuros em novos ciclos de acumulação.

Footnotes

  1. Que “somam a menos de do custo total de um data center”, mas cuja operação é impossível sem tais componentes (Forgash; Rathi, 2026).

  2. As of now (02 de maio de 2026), foi o maior pico do índice VIX desde o ataque (retaliatório) do Hamas a Israel em outubro de 2022.

BROOKES, Leonard G. Energy Efficiency and The Greenhouse Effect. Energy & Environment, v. 1, n. 4, p. 318–333, Dec. 1990.
FORGASH, Emily; RATHI, Akshat. America’s AI Build-Out Hinges on Chinese Electrical Parts. Bloomberg, Apr. 2026.
HA, K. Oanh; YANG, Yang; NG, Naomi. China’s Got Big Plans for AI — In the Desert. Bloomberg, Jul. 2025.
KOLLAR, Justin. Dark Fiber—an Archaeology of the Dot-Com Bubble. , Aug. 2025a. Disponível em: <https://www.technostatecraft.com/p/dark-fiberan-archaeology-of-the-dot>. Acesso em: 22 dec. 2025
KOLLAR, Justin. Cisco, Nvidia, and the Economics of Tech Bubbles. , Nov. 2025b. Disponível em: <https://www.technostatecraft.com/p/cisco-nvidia-and-the-economics-of?utm_medium=android&triedRedirect=true>. Acesso em: 22 dec. 2025
MARTINS, Laís. Eldorado Do Sul Abre Portas Para Projeto Bilionário de Data Center Que Esconde Impactos e Ignora População. The Intercept Brasil, Jun. 2025.
MARTINS, Laís. RN Topa Trocar Dinheiro Da Saúde e Da Segurança Por Data Centers. The Intercept Brasil, Jan. 2026.
MARTINS, Laís; AMORIM, Francisco. TikTok Construirá Data Center No Ceará: `Para Ficar Árido, é Só Um Empurrãozinho’. The Intercept Brasil, May 2025.
TAN, J. S. Are Data Centers a New Growth Engine for Developing Countries? Value Added (Substack), Sep. 2025. Disponível em: <https://www.valueadded.tech/p/are-data-centers-a-new-growth-engine>. Acesso em: 2 may. 2026
WONG, Matteo. Inside the Dirty, Dystopian World of AI Data Centers. The Atlantic, Mar. 2026.