up:: index // 0x5 MOC Mestrado
Introdução
Fichtner; Jaspert; Petry, (2024) separam o surgimento histórico do conceito de “finanças sustentáveis” em três “fases”.
O período que chamam de “finanças sustentáveis 1.0” surge em meio ao movimento anti-apartheid (circa década de 1990), em que alguns investidores europeus e estadunidenses buscaram desvincular seus investimentos na África do Sul e, em geral, “evitar exposição [financeira] a firmas anti-éticas” e “excluir parcial ou completamente firmas específicas ou setores industriais inteiros (p. ex. carvão)” (Fichtner; Jaspert; Petry, 2024, p. 482). A princípio, tais ações vieram de investidores individuais, e mesmo a alocação de capital de “fundos sustentáveis” que começou a surgir neste período “era determinada principalmente pelas decisões individuais de investimento de fund managers e não por índices de ESG” (ibid.).
O período de “finanças sustentáveis 2.0” se instaura com o surgimento de produtos financeiros abertos ao público em geral. Os ETFs1 vinculados a índices de ESG se popularizaram no começo dos anos 2000, em meio à proliferação de tais índices devido à instigação de princípios de auto-governança — do setor privado — por relatórios de sustentabilidade das Nações Unidas2. Estes produtos financeiros, que “passivamente acompanham [passively track] índices financeiros”, permitiram fees menores que outros produtos no mercado, permitindo sua popularização para investidores de varejo3 e conquistando parcelas maiores do mercado financeiro ante investidores institucionais (ibid.).
A partir deste período, em particular, a questão da “sustentabilidade” assume um caráter eminentemente capitalista: torna-se algo naturalizante, em que se observa contemplativamente as mudanças qualitativas do mundo através de índices quantitativos, restringindo a esfera da ação a movimentos meramente financeiros — portanto, despolitizando questões como, por exemplo, a mudança climática. Nesta quantificação da sustentabilidade, tais características qualitativas do mundo socionatural são agora passíveis de comercialização, sendo, portanto, uma superação de um obstáculo há tanto tempo visado pelo capital. Vale a asserção de Telésforo, que diz que
“Em vez de agir de maneira coletiva e contestadora, os indivíduos comprometidos com uma transição ecológica justa podem se ‘engajar’ como investidores e direcionar seus recursos para um fundo ESG. Já é a financeirização não apenas da economia, do Estado e da política social, mas também do ativismo.” (Telésforo, 2025, p. 83)
O objetivo deste artigo é de discutir como a questão ESG se relaciona com a ética do capital — ética no sentido que Lukács o emprega, em que é um direcionador da ação e avaliador de ações mais/menos “adequadas” a algum dado télos (Lukács, 2012, 2013; Medeiros, 2013). A discussão se dará de um nível mais abstrato a um nível mais concreto: primeiro, uma visão sobre a finalidade primeira do capital — sua autovalorização — e como isso induz uma ética imanente a seu movimento; depois, como esta ética imanente não só induz as ações dos indivíduos, como também penetra em suas subjetividades e visões de mundo — porém, sempre ou de maneira conivente ao télos do capital, ou contrário ao capital mas restrito por sua hegemonia em escopo de ação. Verificar-se-á, por fim, como o discurso do ESG — a sustentabilidade cooptada pelo capital — é, no melhor dos casos, mistificador, e, no pior dos casos, greenwashing, isto é, ludibriador, pretende ser sustentável sem sê-lo.
Antes disso, porém, é pertinente ver algum exemplo de como o fenômeno ESG aparece a nós, antes de adentrarmos na elucidação de sua essência.
A dissonância cognitiva do trabalhador corporativo
Em 19 de maio de 2022, o então “líder global de investimentos responsáveis” (Global Head of Responsible Investment) pela HSBC Asset Management, Stuart Kirk, deu uma palestra entitulada “Por que investidores não precisam temer riscos climáticos” (Why Investors Shouldn’t Fear Climate Risk) (Kirk, 2022) — em um evento do Financial Times chamado “FT Moral Money Summit”, sobre investimentos sustentáveis e, em particular, riscos climáticos.4
Nessa palestra, Kirk argumenta sobre os “exageros” com que a crise climática tem sido abordada no meio financeiro à época5, destacando que as demandas top-down de “precificação de riscos climáticos” não possuem tanto impacto em valuations de produtos financeiros, posto que tratam-se de riscos a longo prazo (na ordem de décadas).6 Dentre suas falas ácidas e diretas, porém, a que mais ganhou atenção das manchetes de notícias foi quando ele fala que
“Quem liga se Miami ficará seis metros abaixo d’água em 100 anos? Amsterdã tem estado debaixo de 6 metros d’água por eras e é um bom lugar. Nós lidaremos com isso [We will cope with it].” (Kirk, 2022, p. 07:05)
Kirk deu sua palestra numa quinta-feira. Dois dias depois, em 21/05/2022 (sábado), o CEO do grupo HSBC expressou em seu Linkedin que “não concorda — em absoluto — com os comentários feitos no FT Moral Money Summit da semana passada” e reiterou os compromissos do HSBC com “um futuro net-zero7” e sua ambição em “ser o banco a liderar o apoio da economia global na transição ao net-zero” (Quinn, 2025). No dia após (22/05/2022 — domingo!), Stuart Kirk é suspenso de seu cargo por conta dos comentários em sua palestra (Makortoff, 2022); é irônico, pois uma matéria do próprio Financial Times, o qual foi o anfitrião do evento em que Kirk palestrou, alega que “o tema e o conteúdo [dessa palestra] já haviam sido definidos internamente antes do pronunciamento de Kirk na quinta-feira, de acordo com pessoas com conhecimento do planejamento do evento” e que “o título da apresentação […] havia sido definido dois meses antes e divulgado no site em preparação para o evento.” (Walker, 2022). No dia 7 de julho, meses depois de sua palestra, Stuart Kirk pede demissão da HSBC (Reuters, 2022). Em novembro, quatro meses depois, ele é contratado pelo próprio Financial Times (Financial Times, 2022)!
O motivo de apontar toda essa cronologia é de argumentar que as falas de Kirk não foram meramente “negacionismo climático” ou “ganância corporativa”, como divulgado pela mídia (Gross, 2022; Makortoff, 2022), e sim que apontam para algo mais profundo, evidenciado pelo fato de o Financial Times — um jornal respeitado no meio financeiro, que se esperaria que teria sido lesado pela “má reputação” de Kirk — tê-lo contratado como colunista mesmo depois de toda essa débâcle. Os argumentos que ele faz em sua palestra são fundamentados em dados, não são um mero negacionismo “ideológico”. Uma fala interessante que ele faz é que o “Nosso prazo médio de empréstimo [da HSBC] é 6 anos. O que acontece com o planeta no 7º ano é irrelevante para nossa carteira de crédito” (Kirk, 2022, p. 11:05) — seu discurso não se trata da crise climática, e sim sobre o meio financeiro. O que discutiu sobre “riscos climáticos”, o suposto tema do evento em que palestrou, sempre remeteu ao seu impacto no que tange às finanças (e, em particular, em suas precificações).
Feita esta introdução, discutamos sobre a ética do capital, que condiciona as ações daqueles que por ele trabalham, sejam capitalistas ou trabalhadores assalariados.
A ética do capital
A doutrina Friedman
A despolitização da sustentabilidade
Considerações finais
Footnotes
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Exchange traded funds são fundos de investimento vinculados a índices financeiros. ↩
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“O termo ESG foi cunhado em 2004 em um relatório do Pacto Global das Nações Unidas […], seguido pelos Princípios para o Investimento Responsável (PRI [Principles for Responsible Investment]) da ONU em 2006. Embora os PRI tenham criado uma estrutura ampla para o investimento sustentável, eles não forneceram definições ou padrões específicos para ESG. Na ausência de tal regulamentação pública, esse período testemunhou o desenvolvimento dinâmico de diversas classificações [ratings], dados e índices ESG como ferramentas de autogovernança privada para essa área crescente das finanças, e sua consolidação em algumas grandes empresas que fornecem essas ferramentas […]” (Fichtner; Jaspert; Petry, 2024). ↩
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Investidores que lidam com volumes menores de investimentos, contrapostos a investidores institucionais ou fundos de investimento. ↩
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Telésforo emprega este exemplo para começar seu texto em (Telésforo, 2025). ↩
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Tome-se em vista que a pandemia da Covid-19 “acabou” por volta do fim de 2021, e a palestra de Kirk foi em maio de 2022. Os debates de sustentabilidade ganharam um novo ímpeto em função desta crise sanitária. ↩
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Uma forma heurística de pensá-lo, pelo ponto de vista da economia, é através de descontos exponenciais ou hiperbólicos: supondo periodicidade anual de recebíveis financeiros, os valores recebíveis daqui a um ou dois anos têm muito mais impacto no valor presente do que recebíveis a décadas no futuro. ↩
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Ou seja, em que todas as emissões de carbono são contrabalançadas pela capacidade do planeta Terra de absorvê-las. ↩