up:: 010 MOC Marxism

“Diversos estudos científicos têm dado razão [à percepção de que] os fundos ESG, na realidade, não têm impactos ambientais positivos. Não se trata, portanto, de “separar o joio do trigo”, como se práticas de greenwashing fossem exceções pontuais. O ESG é um discurso e um projeto de greenwashing sistêmico, de construção de uma imagem “verde” para o capitalismo global, sobretudo para o mercado financeiro, sem promover de modo efetivo a descarbonização da economia, muito menos uma transição justa.” (Telésforo, 2025, p. 80)

Por tratar-se de algo oposto ao seu próprio Pôr Teleológico, ESG é uma versão meramente formal de sustentabilidade: o capital restringe suas ações “sustentáveis” àquilo que lhe convém, por exemplo, custos associados a legislações vigentes (e também ponderando qual o custo-benefício de evadi-las). Quando segue tais ações “sustentáveis” de bom grado, ou o faz porque elas lhe trarão algum retorno adequado — por exemplo, em visibilidade (propaganda) —, ou o faz contra seu télos — em cujo caso não está agindo enquanto capital.

Dessa forma, pode-se dizer que o ESG como um todo é um esquema de greenwashing, não porque sua aparência dá a entender que sua essência é essa, mas porque sua própria essência é substancialmente “esquizofrênica”, contraditória. Quando se fala genuinamente de mudanças socioambientais, não fala-se em nome do capital; é por isso que é tão comum ver falas do capitalismo verde que comecem com um tom “militante” e acabem com o jargão de business. Por exemplo:

“Our Investment Stewardship group engages extensively with companies around the world on issues that are material to companies’ long-term financial [!] sustainability. Over the past several years, we have written letters to company CEOs emphasizing the importance of a long-term approach. We’ve asked them to articulate their long-term growth strategies; to ensure proper governance; and to address other material social and environmental issues [discurso ESG] relevant to their business models [discurso de business] — all steps that we believe indicate the good management [“sustentável”, claro] that drives long-term growth [se não houver crescimento, why bother?]. The team’s 2018 priorities include: corporate strategy, governance (including Board diversity), climate risk disclosure [ESG até agora], compensation, and human capital management policies [business].” (Chairman Letter’s de Larry Fink, 2017, p. 20. Disponível em: https://s24.q4cdn.com/856567660/files/oar/2017/downloads/BLK_AR17_Chairmans_Letter.pdf)

Em 2018, o tom necessariamente teve de esfriar:

“That is what I mean when I say companies need sustainable [grifo no original] business models. It’s not about imposing anyone’s personal environmental or social values on the companies we’re invested in on behalf of clients, nor is it BlackRock taking political positions [grifo meu; discurso ESG]. It’s about providing a strategic and risk management framework that supports and enhances a business’s ability to operate and deliver value to its key stakeholders over the long term [discurso apaziguador de business].” (Chairman Letter’s de Larry Fink, 2018, p. 19. Disponível em: https://s24.q4cdn.com/856567660/files/oar/2018/downloads/BlackRock_AR18-CEO-Letter.pdf)

Em 2021, em sua famosa “Letter to CEOs” no segundo ano da pandemia da Covid-19, a questão ESG estava totalmente em alta, e Fink lança uma convocatória explícita às “companhias de todos os países”:

“While issues of race and ethnicity vary greatly across the world, we expect companies in all countries to have a talent strategy that allows them to draw on the fullest set of talent possible. As you issue sustainability reports, we ask that your disclosures on talent strategy fully reflect your long-term plans to improve diversity, equity, and inclusion, as appropriate by region. [grifo no original!] We hold ourselves to this same standard. [!!!]” (Disponível em: https://www.blackrock.com/corporate/investor-relations/2021-larry-fink-ceo-letter)

Será que é tão irônico assim que a Blackrock, logo do segundo mandato de Trump em 2025, deu com o rabo entre as pernas e silenciosamente mudou sua página web sobre diversidade, depois, no mínimo, do dia 14 de dezembro de 2024 (Johnson, 2025)? Quão importantes eram suas várias “awards and recognitions” na área de diversidade e inclusão (disponíveis nessa página web pré-Trump 2.0), se elas foram tão incerimoniosamente lançadas ao oblívio?

Como colocado por Baines e Hager,

“Overall, in taking a comprehensive approach, our findings indicate that the Big Three’s most recent attempts to distance themselves from sustainable finance are less a U-turn and more a consolidation of a long-standing position of climate obstructionism [!]. For the Big Three, environmental stewardship has always taken a backseat to shareholder value, and so their recent attempts to distance themselves from the rhetoric of sustainable finance in a context of heightened uncertainty should come as no surprise. Our research thus raises serious doubts about the role of shareholders like the Big Three in climate advocacy. At best, such advocacy efforts should be considered a minor complement to wider, more ambitious state-led strategies to bring about a low-carbon energy transition. Yet, in view of our findings, these efforts more likely represent, in the words of BlackRock’s former chief investment officer for sustainable investing [Tariq Fancy], a ‘deadly distraction’ that delays such state-led efforts.” (Baines; Hager, 2023, p. 451-2; grifo meu)


Referências

  • BAINES, Joseph; HAGER, Sandy Brian. From passive owners to planet savers? Asset managers, carbon majors and the limits of sustainable finance. Competition & Change, v. 27, n. 3–4, p. 449–471, jul. 2023.
  • JOHNSON, Lamar. BlackRock ends diversity goals, merges DEI team into ‘Talent and Culture’. ESG Dive, 3 mar. 2025. Disponível em: https://www.esgdive.com/news/blackrock-ends-diversity-goals-merges-dei-team-into-talent-and-culture/741391/
  • TELÉSFORO, João. Confissões do capitalismo “verde”: lucrando com a tragédia climática e com placebos ESG. In: LUEDY, Laura (Org.). Tempo fechado: colapso ecológico e capitalismo. São Paulo: Boitempo, 2025.