up:: 099 MOC Anotações
Coloca-se logo no início a questão de que,
“enquanto um matemático, um físico ou um químico poderiam perambular em uma aula usual de História e não ficarem totalmente perdidos, o mesmo não ocorreria com um cientista de Humanas [humanist] visitando uma aula de um colega seu das Ciências [visiting a class taught by his or her science colleagues]” (Glasberg, p. 278).
Conclui-se o que a aparência do fenômeno joga à nossa cara: que “é precisamente esta assimetria que tende a lançar uma sombra sobre o trabalho interdisciplinar” (ibid.). O problema é então, claro, que as Ciências (Exatas) são avançadas demais! Afinal, como podemos viver em uma sociedade que não tenha uma “profunda fissura em nossa cultura [a deep fissure in our culture]” sem que todos tenham uma mínima noção do que os cientistas (exatos) fazem? E, não obstante isso, ninguém se importa com as intricacias dos trabalhos dos pedreiros, dos arquitetos, dos marceneiros etc. — vivemos mal por não sabermos, todos nós, todos os detalhes de seus métiers? Por que, então, tanto problema com a especificidade do trabalho dos cientistas exatos? Parece até, quem sabe, que, invés de questionar o porquê do fetiche tecnocrático da sociedade, mergulha neste fetiche e critica-se a técnica! Já aqui se entrevê, borradamente, o caráter indelevelmente idealista deste texto. Mas não faltarão formas explícitas de vê-lo. Adiante.
Não bastasse isso, há também o problema da “perspectiva antiespiritualista” da Ciência.
“Embora cientistas de humanidades [humanists] e cientistas sociais não sejam capazes de lidar com formas mais abstratas de conhecimento racional (como incorporadas nas ciências duras [hard sciences]), há uma aceitação geral da forma de raciocínio enquanto tal; e isso significa uma profunda suspeita do que pode ser chamado de místico, o qual jaz no coração do approach espiritual do mundo e o qual nem sempre é passível de tratamento racional.” (p. 278, destaques meus)
Aponta-se uma questão que, creio eu, seja correta: há uma faceta “mística”/espiritual à vida humana, que tem sido jogada para escanteio com o avanço das Ciências e do modo tecnocrático que se impõe a nós em nossas vidas cotidianas. Isso não quer dizer 1) que as Ciências o façam “porque odeiam o místico”, nem 2) que as Ciências devam incorporar “o místico” em seus métiers. Afinal de contas, responda-me o leitor: quão místico foi o processo de confecção de suas roupas? Isso te importa? Então por que importa que o fazer científico de questões não-místicas deva incorporar um caráter místico? Uma coisa é que o fazer científico devenha mais espiritual, e outra, completamente diferente, é que os cientistas sejam mais abertos à espiritualidade — e não me oponho a este último ponto, desde que ele não interfira onde ele não é devido. Mais sobre isso adiante.
Inclusive, um apontamento sobre essa questão. A assim-chamada “terceira lei de Asimov” — mais um adágio/heurística do que uma “lei” férrea, mas pois bem — diz que “toda tecnologia suficientemente avançada é indistinguível de magia”. Algo similar acontece quanto ao conhecimento científico: aquilo que não entendemos com “explicações racionais” é passível de explicações “super-naturais”. As coisas caem ao chão “porque é junto ao solo que querem estar”1; os planetas orbitam entre si “porque são celestiais” etc. etc. Embora estruturas arquitetônicas pudessem ser construídas a despeito de tais crenças no passado, não é devido a elas que temos estruturas arquitetônicas como o Burj Khalifa ou túneis submarinos como o do Canal da Mancha. Devemos retornar a tais crenças? Retornar ao passado idílico antes de que Adão e Eva comessem o fruto proibido do Conhecimento?
”Metolodogia”
Referências
GLASBERG, Ronald. Mathematics and spiritual interpretation: A bridge to genuine interdisciplinarity. Zygon®, v. 38, n. 2, p. 277-294, 2003.
Footnotes
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Why do birds suddenly appear, every time that you’re near? Just like me, they want to be close to you… ↩